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As previsões para a nossa agricultura em 1979

por Rui Daher publicado 01/08/2014 11h40
Quase 40 anos atrás, Alberto Passos Guimarães apontou um futuro promissor para a agricultura, que o Brasil atingiu sem realizar as mudanças profundas por ele preconizadas

Prometo e cumpro. É o que me distancia da retórica dos principais candidatos presidenciais, exposta em sabatinas promovidas pelas folhas e telas cotidianas. Um tedioso nada.

Aliás, deixo claro. Desde adolescente, espero ver país mais justo. Que melhor distribua as riquezas recebidas de divindades mono ou panteístas, e asseguradas por longos bigodes lusitanos.

Daí que meu ideário político e voto sempre foram e continuarão indo para quem melhor me convença dessa realização. Pouco me importa se através de falastrões populistas, caudilhos pampianos, ditadores ilhéus, príncipes em plumas sociológicas.

Também, desconsidero quem, privilegiado, pede austeridade hoje para distribuição futura. Fosse assim não teríamos a miséria que aqui viceja. “Distribuidômetros” internos me apontam os que consideram repartir as poucas sobras.

A promessa, feita na coluna da semana passada, vem de Alberto Passos Guimarães e sua obra “A Crise Agrária” (Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1979), exuberante exercício de história e projeção, que acabo de reler perto de extensos campos rurais, ouvindo relinchar a natureza.

Nasceu em Maceió (1908) e morreu no Rio de Janeiro (1993). Autodidata, comerciante, jornalista, enciclopedista, funcionário do IBGE e da Rede Ferroviária Federal, um barnabé, diria pedante colunista dos jornalões. A avaliação pioraria, ao sabê-lo militante do Partido Comunista Brasileiro.

Embora o livro passe pelos primórdios da agricultura no planeta, e lance análises detalhadas das interações entre as revoluções agrícola e industrial no século 18, consideradas em suas expansões e contradições, o foco do autor é o futuro da agricultura brasileira.

Parte da década de 1970, que marcou o início de nossa tardia revolução agrícola, sucessora de ciclos monocultores, muitos fadados ao fracasso.

Atenção para dois trechos do último capítulo do livro.

O primeiro: “O Brasil dispõe de todos os recursos naturais e humanos indispensáveis à implantação de uma das mais importantes, mais prósperas e mais progressistas agriculturas do mundo”.

O segundo: “(...) dependerá da capacidade que tenham, ou venham a ter, as forças sociais majoritárias no campo, para exigirem (...) mudanças profundas na tradicional política concentracionista da propriedade, da produção e da renda, que vem sendo aplicada secularmente, no Brasil”.

Quase 40 anos atrás, Alberto Passos Guimarães, ao dissecar a crise agrária apontou um futuro promissor, que o Brasil atingiu sem, no entanto, realizar as mudanças profundas por ele preconizadas.

Por um lado, alertava para o risco de nossa agricultura ficar subordinada ao domínio de conglomerados industriais na aquisição de “insumos técnicos no lugar dos naturais”, e de “vender a produção num mercado dominado por organizações monopolistas, a preços ‘políticos’, deprimidos por várias pressões, inclusive as do Estado”.

Algum erro aí?

Mais: considerava que a formação do complexo agroindustrial em países ‘menos desenvolvidos’ tornava seu setor produtivo subordinado às empresas multinacionais.

Errado?

Previa, também, que a implantação da agricultura em molde de grandes empresas, transformaria os latifúndios tradicionais improdutivos em latifúndios capitalistas, provocando um “maciço despovoamento do campo”, com reconhecidas repercussões nas cidades.

Aconteceu.

Da mesma forma que aconteceram suas previsões de a agricultura se tornar uma das mais importantes fontes de energia do futuro, pela utilização da biomassa das plantas; os caminhos abertos pela pesquisa agrícola; a avidez dos consórcios financeiros na procura de terras inexploradas nos países pobres.

Estamos aí.

Vista assim do alto, como me ensinou Paulinho da Viola, parece que Guimarães pouco errou.

Quando aproximamos a lupa, porém, a superação da “Crise Agrária”, título de seu livro, passava por “um plano integrado de reforma agrária que vise a mais ampla distribuição de terras públicas e privadas, ociosas ou inexploradas, entre todos quantos aspirem a cultivá-las”.

Não foi assim.

Poderia Alberto Passos Guimarães ter previsto as injunções do processo de globalização e as intensidades do aumento da demanda pela China e do impensado grau de inovação tecnológica a que chegou a agricultura?

Entrem na discussão. Prometo voltar ao assunto na próxima coluna. Se não mudar de ideia.

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