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As limitações dos nossos conhecimentos

por Paulo Yokota — publicado 24/02/2014 11h16, última modificação 24/02/2014 11h25
Parte do que imaginamos sobre a China está defasada da atual realidade
Galeria de Tomoaki INABA/Flickr
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Pensamos a China como uniforme, quando ela possui muitas etnias diferentes com o povo falando os seus idiomas como cantonês, pequinês e dezenas de outros

Com base nos conhecimentos que obtive “in loco” na imensa China, ouso afirmar que parte do que imaginamos sobre aquele país está defasada da atual realidade. Pensamos a China como uniforme, quando ela possui muitas etnias diferentes com o povo falando os seus idiomas como cantonês, pequinês e dezenas de outros, sendo o mandarim o oficial usado pelas elites.

Joseph Needham, professor de Cambridge que reuniu no seu museu tudo que conseguiu coletar em muitas décadas de viagens pela China e escreveu o clássico “Science and Civilization of China”, mostrou que a contribuição chinesa ao longo da história para a humanidade vai muito além da pólvora, da bússola e do papel, sendo os chineses os maiores inovadores com conhecimentos relevantes no mundo. Em uma das suas viagens, no fim da década de 1930, em plena guerra sino-japonesa, utilizou para locomover-se pelas precárias estradas de então uma adaptação de uma ambulância, nada menos que movido a etanol, quando pensamos que os brasileiros são os pioneiros no uso do álcool.

David M. Lampton, professor de Estudos Chineses e diretor da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Johns Hopkins, esclarece como a China é governada no seu ensaio publicado pela Foreign Affairs em janeiro/fevereiro de 2014. Ele afirma que a imagem que muitos possuem sobre o sistema político na China corresponde ao período de Mao Tsetung até Deng Xiaoping, quando eles tinham o poder de decidir sozinhos. Os dirigentes atuais, como Xi Jinping, estão subordinados às decisões conjuntas tomadas pelo Politburo chinês, havendo um grande espaço para as das autoridades locais. Sabidamente, os dirigentes comunitários são eleitos pelos seus componentes naquele país. Hoje, é necessário auscultar a opinião pública, que é consultada por mais de 50 mil entidades especializadas nos seus levantamentos habituais. Ainda assim, estão muito longe do conceito de democracia ocidental.

Parece útil entender que em toda a Ásia os ensinamentos de Confúcio estão arraigados, sendo que a importância dos pais, dos professores, dos idosos, de todos os transmissores da cultura é superior à dos filhos, dos alunos e dos jovens que herdam estes conhecimentos. Isto resulta em uma sociedade hierarquizada que precisa ser respeitada, ainda que diferente da democracia de origem com base nas revoluções norte-americana e francesa que entende que todos são iguais, o que não corresponde à realidade, infelizmente.

Estas limitações de conhecimentos ocorrem também com relação ao Brasil. Por experiência profissional, conheço mais de 40 Amazônias diferentes no nosso país, onde a planície e a floresta tropical é uma parte. Nos contatos com os posseiros nos fundões deste Brasil, sempre tive que usar intérpretes para que uma comunicação verdadeira ocorresse, pois eu não entendia o que falavam como eles a mim num clima de desconfiança. Poucos sabem que metade de Roraima é de campo e lá existem quedas de água de mais de 700 metros de altura e não existe nenhum trecho da Transamazônica com 10 quilômetros de reta. Ou que existiu na região do Acre um país independente chamado Plácido de Castro, cujos títulos de terra são oficialmente reconhecidos pelas autoridades brasileiras, informação que nem consta dos livros didáticos.

 

Paulo Yokota é ex-diretor do Banco Central do Brasil e ex-presidente do Incra. Com dupla cidadania (brasileira e japonesa), viajou mais de 100 vezes para a região e atualmente publica no site Ásia Comentada


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