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Economia

Queda de Lehman Brothers

As finanças das crises

por Giuliano Contento de Oliveira — publicado 19/09/2013 03h47, última modificação 19/09/2013 10h14

A ascensão e supremacia da liberalização e desregulamentação das finanças lançaram as bases para a constituição de mercados financeiros verdadeiramente globais no capitalismo contemporâneo. O sistema de gestão da riqueza se tornou, progressivamente, ditado pela lógica da especulação.

Conformou-se, com efeito, um espaço global para a valorização do capital. Sem as restrições impostas pelas regulações internas dos países, de um lado, e com a progressiva capacidade de mobilidade entre os países, de outro, os fluxos internacionais de capitais se tornaram excepcionalmente instabilizadores, mormente para as economias de moedas inconversíveis.

Sob a égide de um sistema monetário e financeiro internacional hierarquizado, baseado em moedas nacionais, tais processos, em articulação com a institucionalização das poupanças individuais e a securitização, tornaram frequentes os episódios de crises financeiras, impondo ajustes macroeconômicos severos e frequentes em muitos países.

A mais recente crise global, detonada em 2008, foi sem sombra de dúvida a mais marcante de todas, exatamente por atingir o centro vital do sistema financeiro mundializado contemporâneo, a saber, o sistema financeiro americano.

Depois do colapso do sistema de Bretton Woods, a principal âncora do dólar passou a ser, exatamente, o sistema financeiro americano, o mais líquido e profundo do planeta. Destarte, a crise, ao atingir um dos principais pilares da hegemonia americana, além de ter suscitado o risco de uma nova grande depressão, ensejou dúvidas acerca da supremacia absoluta do dólar no sistema monetário internacional.

A análise retrospectiva permite elencar muitos fatos emblemáticos da crise. Neste pequeno artigo, faz-se menção a quatro deles, a saber: i) a reação dos mercados frente à economia americana; ii) a reação não convencional do Banco Central americano, o Fed; iii) a consolidação da lógica baseada na privatização dos ganhos e socialização de prejuízos privados; e iv) a dinâmica do “business as usual” e as finanças da crise.

Em primeiro lugar, foi notável o ingresso de capital na economia americana no contexto imediatamente subsequente à crise. Mais do que uma contradição, a apreciação do dólar naquele contexto ilustrou, de maneira didática, a supremacia da moeda dos Estados Unidos no Sistema Financeiro Internacional. Depois, é verdade, o dólar passou a sofrer um processo de depreciação, inclusive por conta das políticas anticíclicas, mas não deixou de ser notável o comportamento do dólar no imediato pós-crise.

Em segundo lugar, o Fed rasgou a cartilha do “novo consenso” de política monetária, fazendo uso de instrumentos há muito sepultados pelo representantes do que se poderia chamar de “verdadeira ciência econômica”. O Banco Central americano mostrou que entre o risco moral e o risco de colapso do sistema financeiro, o primeiro deve ser assumido e, o segundo, eliminado, nem que para isso seja necessário incorrer na contradição de fazer uso de medidas pouco convencionais, rompendo-se com o dogma da política monetária segundo a sabedoria convencional: um instrumento, um objetivo.

Além disso, e em terceiro lugar, vale mencionar que no contexto de globalização das finanças, e a experiência recente não fugiu à regra, proliferou-se e naturalizou-se o sistema de privatização dos ganhos, em tempos de bonança, e socialização dos prejuízos privados, em períodos de crise. Para muitos, não haveria nada a fazer, ante a centralidade das finanças no capitalismo contemporâneo e as lições da Grande Depressão dos anos 1930.

A questão central, contudo, não diz exatamente respeito à necessidade de intervenção para evitar o colapso do sistema financeiro, mas, sim, à forma como esse processo tem sido realizado e aos seus efeitos sobre as sociedades. A metamorfose de dívida privada em dívida pública, de um lado, e o subsequente ajuste recessivo das economias em crise, de outro, revelam a necessidade de se avançar, e muito, no plano da regulação do sistema financeiro. Sob o risco de uma grande depressão, sociedades são penalizadas em razão dos abusos de poucos. De fato, em contextos como a da crise global recente, os bancos centrais precisam agir e exercer as funções de prestamista de última instância e “market maker”. Os recursos para isso, contudo, poderiam advir de fundos constituídos pelo sistema financeiro, a partir dos exorbitantes lucros obtidos durante os períodos de prosperidade.

Finalmente, o quarto e último fato emblemático da crise, aqui elencado, diz respeito à dinâmica do “business as usual”. Depois das indicações de muitos governos de que mudanças substantivas ocorreriam nos sistemas financeiros, efetivamente pouco se avançou nessa frente e tampouco há indicações de que mudanças relevantes vão acontecer. A lógica dos negócios tem feito com que, ao invés de uma crise das finanças, as sociedades continuem subjugadas às finanças das crises.

*Professor do IE/Unicamp e membro da atual diretoria da Associação Keynesiana Brasileira