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Economia

Coluna Econômica

As discussões recorrentes sobre política industrial

por Luis Nassif publicado 29/08/2013 10h39, última modificação 29/08/2013 10h43
O tema central, ainda não totalmente definida, é em relação ao modelo de inserção do país na economia global

Não há discussão mais recorrente no país do que a falsa dicotomia entre câmbio e reformas estruturais para se alcançar a competitividade da produção nacional.

Os mercadistas são contra qualquer forma de defesa da produção interna via câmbio. Argumentam que, em vez da desvalorização cambial, a economia deveria buscar ganhos de produtividade, investindo em reformas, melhoria fiscal, infraestrutura etc.

Já os defensores de políticas industriais sustentam que o câmbio é elemento essencial para se obter a competitividade.

A lógica é simples.

Para ser competitiva, empresas necessitam de produtos com boa relação custo x benefício. Produtos de maior sofisticação custam mais caro; produtos mais simples, mais baratos. Ambos têm espaço no mercado.

***

Há casos em que empresas pequenas conseguem desenvolver tecnologias matadoras ocupando nichos de maior valor. Mas a maior parte das empresas (e países) têm uma linha de aprendizado padrão. Começam pequenos, conquistam mercado via preço. Depois, à medida em que vão crescendo, ampliam os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, produzindo produtos cada vez melhores e mais caros.

Foi assim nos milagres japonês, coreano e chinês. Foi assim com empresas como a LG e a Samsung – até poucos anos atrás fabricantes de computadores pessoais de segunda linha.

***

O custo final de um produto depende de uma série de fatores: custo da tecnologia, mão de obra, logística, impostos, burocracia etc. E câmbio.

Quando existe uma disparidade entre produtos internos e externos, a única saída para conferir competitividade ao produto interno é através da desvalorização cambial.

Confira o exemplo hipotético abaixo.

 

Situação 1

País A

País B

Matéria prima

30,00

20,00

Salários

40,00

20,00

Tributos

30,00

10,00

Burocracia

10,00

5,00

Custo final

110,00

55,00

Morda/US$

0,50

1,00

Preço em US$

55,00

55,00

 

Situação 2

 

País A

 

País B

Matéria prima

25,00

20,00

Salários

39,00

20,00

Tributos

12,00

10,00

Burocracia

8,00

5,00

Custo final

84,00

55,00

Morda/US$

0,65

1,00

Preço em US$

55,00

55,00

 

Na Situação 1, para um mesmo produto o custo de produção do País A é de 110,00 contra 55,00 do país B. Como competir? O único caminho é o País A desvalorizar sua moeda, de maneira a valer a metade da moeda do País B. Assim, na hora de converter em dólar (a moeda que serve de parâmetro para o comércio exterior brasileiro), os preços se igualam.

Na Situação 2, o país conseguiu melhorar o custo da matéria prima, dos salários, tributos, etc. Chegou a um custo final de 84,00, contra os 55,00 do concorrente. Nesse caso, a moeda local poderá se valorizar de 0,50 para 0,65 porque os demais fatores melhoraram.

***

Não há tanto mistério na lógica das políticas industriais, para suscitar tantos e tantos anos de debate.

Há que se trabalhar sobre os custos internos, investir em inovação, utilizar o poder de compra do Estado para estimular setores novos e desvalorizar o câmbio para poder competir com produtos externos, investir em educação e infraestrutura.

As discussões centrais, ainda não totalmente definidas, são em relação ao modelo de inserção do país na economia global, abrindo-se cada vez mais para o mercado internacional.