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Alimentar a urbe

por Delfim Netto publicado 23/09/2010 17h15, última modificação 23/09/2010 17h15
Nas próximas duas décadas, mais 200 milhões de chineses serão incorporados ao mercado de consumo

Nas próximas duas décadas, mais 200 milhões de chineses serão incorporados ao mercado de consumo

A organização Internacional do Trabalho (OIT), o Banco Mundial, a ONU (por intermédio da FAO) e o nosso conhecido FMI manifestaram por esses dias preocupação com o problema do êxodo rural que vem acontecendo em quase todos os países, com projeções de números robustos para os anos vindouros. As estimativas quanto à evolução do fenômeno nas diversas regiões do mundo variam, mas os números convergem para algo como 30 milhões de pessoas se deslocando anualmente do campo para as cidades nos próximos 20 a 30 anos.
Cada organismo tem sua ideia da intensidade dos problemas, embora concordem que os dois maiores serão: 1. Criar as condições de atender à demanda por alimentos em meio ao processo de abandono das áreas rurais. 2. Erguer as estruturas urbanas capazes de acolher essa móvel população.

São desafios comuns a todos os países, com ênfase maior em dois deles, a China e a Índia, onde os números são ciclópicos. O êxodo é significativo também em outras regiões da Ásia, onde o crescimento econômico acelerado conduz à expansão das áreas urbanas. A China tem uma condição especial de controle político e social, o que pode permitir a transferência do campo para as cidades de forma um tanto menos caótica.

No geral, no entanto, essa mobilidade demográfica nos países emergentes vai produzir nos primeiros instantes uma diminuição na produção do campo. Paralelamente, aumentará a demanda dos alimentos na zona urbana, com uma particularidade que é sair de uma dieta mais simples para produtos de maior sofisticação. Na medida em que essas populações se transferem para as cidades, seus níveis de salário e renda crescem e elas passam a exigir alimentos calóricos de qualidade superior.

Novamente, tomando a China como exemplo, dá para imaginar as consequências de tamanha revolução: documentos oficiais chineses estimam que, nos próximos 20 anos, serão incorporados ao seu mercado de consumo 200 milhões de cidadãos. Eles serão oriundos principalmente das áreas rurais, cuja renda será comparável à renda dos brasileiros da classe média (média e alta) de hoje.

Serão novos consumidores de novos bens, cuja demanda terá de ser atendida em parte pela produção doméstica, mas, provavelmente, a maior parte o será pela importação. Isso abrange uma gama enorme de produtos que terão de chegar já processados ao mercado chinês e sob a forma de matérias-primas industriais ou de alimentos. São conhecidas as limitações que o país apresenta para expandir o setor agropecuário (água, energia e terras férteis, especialmente) e poder almejar um dia a autossuficiência alimentar.

Quanto aos demais países ditos emergentes, onde o processo de urbanização também está em marcha, a consequência será a redução da produção de alimentos até que consigam aumentar de forma dramática a produtividade agrícola. A situação do Brasil é muito especial sob vários aspectos: sendo um país que sempre mostrou altos índices de mobilidade social, tem hoje quase 80% de sua população vivendo nas cidades.

Nos últimos 50 anos, construímos uma agricultura extremamente eficiente e soubemos tornar rentáveis os diversos ramos da pecuária, tornando-nos o maior exportador mundial de carnes. A alta produtividade e a diversificação de suas lavouras lhe permitem competir com vantagem no comércio internacional de grãos, ao mesmo tempo que garante a autossuficiência alimentar no mercado doméstico.
Isto tudo significa que o Brasil tem hoje uma perspectiva extremamente promissora, diante do enorme aumento da demanda mundial por alimentos nesses 30 anos vindouros. As circunstâncias são bastante favoráveis para que a agropecuária brasileira se consolide não apenas como a maior exportadora mundial, mas, e principalmente, como a atividade que vai continuar garantindo ao País a sustentação dos programas de combate à fome e à miséria, cujo sucesso depende essencialmente de uma oferta adequada de alimentos no mercado interno.

Se os próximos governos tiverem a capacidade de entender corretamente esse processo migratório no interior dos países e os riscos que ele envolve, o Brasil poderá tirar grande proveito das oportunidades que se oferecem com esse aumento da demanda mundial por alimentos.

Temos de acompanhar com atenção os movimentos do comércio mundial para não deixar de aproveitá-las. Sem perder de vista, contudo, que não podemos nos concentrar apenas em atender a essa nova demanda externa, pois a nossa grande prioridade deverá continuar a ser a construção de um mercado interno capaz de dar emprego de boa qualidade a 200 milhões de brasileiros em 2030.