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Coluna Econômica

Aguardando o gatilho do FED

por Luis Nassif publicado 17/09/2013 11h14
Há enorme agitação no mercado, alguma apreensão justificável de analistas mais sólidos e o terrorismo furado de sempre dos alarmistas

Nos próximos dias, o FED (o Banco Central dos EUA) iniciará a retirada gradual dos incentivos monetários criados para superar a crise de 2008.

Há enorme agitação no mercado, alguma apreensão justificável de  analistas mais sólidos e o terrorismo furado de sempre dos alarmistas.

Os estímulos monetários consistiam na injeção de dólares na economia, por parte do FED, através do resgate de títulos do Tesouro. E em derrubar a taxa básica de juros para próxima de zero.

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Os efeitos sobre as economias emergentes foram os seguintes:

1. Com a economia norte-americana em recessão, esse dinheiro ficou empoçado nos bancos. Com as taxas de juros próximas de zero, investidores institucionais (como fundos de pensão) e investidores em geral passaram a buscar alternativas nas economias emergentes.

2. Excesso de dólares provocou uma apreciação do câmbio. As moedas nacionais tornaram-se mais caras do que o dólar (especialmente o real), tirando a competitividade dos produtos manufaturados e semimanufaturados.  Mantiveram-se apenas as cotações de commodities (produtos primários), que resistiram à crise de 2008.

3. Mesmo assim, as contas externas tornaram-se fortemente negativas. Mas o fluxo financeiro e reservas cambiais robustas garantiam o real apreciado.

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Nos últimos meses, um novo conjunto de fatos espalhou certo pânico pelo mercado.

Imaginava-se o pior cenário.

A economia chinesa se desaquecendo e derrubando as cotações de commodities e, consequentemente, ampliando o déficit nas contas externas. Com o fim dos estímulos monetários, os dólares sendo atraídos novamente para o mercado de títulos norte-americano, deixando de financiar os déficits dos emergentes. Esse movimento seria radicalizado (isto é, haveria um "overshooting") com o aumento da percepção de risco dos emergentes, diretamente proporcional à vulnerabilidade das contas externas. A essa ampliação dos movimentos de mercado denomina-se de "overshooting".

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À medida que se aproxima a data fatal, há maior bom senso no ar. Constatou-se que:

1. O "overshooting" talvez não seja tão agudo, seja pela percepção de que os riscos serão menores do que os imaginados ou pela constatação de que o FED pretende conduzir as mudanças com cautela.

2. A desvalorização do real promovida nos últimos tempos melhorou relativamente a competitividade interna. Já está em curso a recuperação das vendas de alguns segmentos que concorrem diretamente com importados, além da melhoria nas exportações de alguns segmentos relevantes, como o automobilístico. Ainda não se sabe em que nível. Um segundo fator é a própria recuperação da economia norte-americana.

3. Por outro lado, o desaquecimento da economia chinesa não parece tão acentuado quando se temia.

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Há um leg entre todos esses fatos.

O efeito FED será instantâneo, com possíveis pressões sobre o real. Haverá uma melhoria relativa das exportações brasileiras e das contas externas em geral - mas ainda não é possível avaliar em que nível.

Necessidade de atrair dólares, de um lado, pressão nos preços do outro, falta de políticas alternativas, talvez obrigue o BC a pressionar os juros.

De qualquer modo, esse conjunto de fatores permitirá a economia entrar mais sólida em 2014 do que entrou em 2013.

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