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#AgoraÉQueSãoElas

Agro negócio de verdade

por Rui Daher publicado 09/11/2015 18h07
Esta coluna é da professora de português Odonir Oliveira, como parte do movimento #AgoraÉQueSãoElas
Arquivo/Parque Estadual Serra do Brigadeiro
Campo

Vilma era do campo e tinha a marra característica de quem sabe escolher

Convidei a Odonir para escrever esta coluna. Amigos virtuais, que a vida logo fará real, encantaram-me seus textos, músicas, fotos, enfim, a sensibilidade de seu blog. Fez Letras Clássicas, na USP, e foi ser professora de português e literatura em escolas públicas e particulares de São Paulo.

Hoje mora em Barbacena (MG). Lá mantém o Clubinho da Leitura, um lindo trabalho voluntário e pedagógico para crianças. Como ela mesma me disse: “os tempos são de nos assumir como fractais humanos”. Afinal, agora é que são elas, livres para assinar textos eu-penso-assim.

Agro negócio de verdade

Por Odonir Oliveira

Na manhã seguinte foi. Parecia querer resolver de uma vez aquilo. Entrou na cozinha da casa grande, mas não queria ninguém ali. Nem era dali. Ela era da senzala. Seu negócio, seu agro negócio era o lavrador de café, suado, vermelho da testa à ponta do queixo. Era ele que ela queria.

Era uma mulher de 30 anos, cheia de graças e segredos. Ninguém ali a tivera nem para aquelas conversinhas de cerca- lourenço tão costumeiras por lá. Tinha a marra característica de quem sabe escolher. Era do campo. Quero isso, quero esse, faça assim, faça aqui, que aqui é bom. Pois é, Vilma era desse jeito.

Saíra da cidadezinha para estudar na universidade federal. Assim quis e continuou estudando ... mas aquele gosto de terra e suor não saía de sua boca. Era prazer maiúsculo aquele negócio. Agro negócio – pensava sempre. Vou lá, vou voltar lá. Vai ser lá.

De lembranças da universidade na cidade do interior - nem tão pequena assim - havia uns três caras que lhe amansaram desejos, mas também lhe deixaram carências. Carências de quê? De terra molhada, de sujeira nas unhas, de cheiro de chuva e de pegada. Homem pra ela, que crescera por meio dos matos, tinha de ter pegada. E ela também tinha, que era broto do chão.

Josué fora nascido e criado na vereda, na estrada do sem culpa nenhuma, no ensinamento do sertão, sem conceber nem conceder o pecado original. Bebia pinga e ria. E depois levitava o diabo do homem. Sestroso, manhoso, marrento. Como Vilma.

Naquela noite de cavalgada, eram muitos os peões ali. Paramentados como para um culto cristão, eram poucos os de raiz, flores e frutos. Josué era. Espalhava um perfume de maracujá, ou seria um sabor de jabuticaba? Bom mesmo era ver aquela boca vermelha dele, pendurada no rosto, quase sem sorrir. Vilma tomou as rédeas e seguiu.

Cavalgadas contam sempre com encerramentos religiosos, sagrados. Mas nem sempre. Às vezes, profaníssimos.

Josué rezou suas orações, benzeu-se, beijou a medalhinha e entregou-se à volúpia daquele negócio com Vilma.

Agro negócio de verdade!

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