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Opinião

A política neoliberal para o agronegócio de Aécio e Marina

por Rui Daher publicado 26/09/2014 11h58
Conselheiros dos dois candidatos se mostram contra a continuidade do Plano de Safra
Camila Domingues/Palácio Piratini
Soja

Quem salvou os produtores na crise dos preços das commodities?

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, nunca deixa de subir e descer escadas em pulinhos ágeis. Para ameaçar islâmicos inimigos da humanidade ou acariciar cabeças negras de africanos. Na França, o presidente François Hollande esbraveja com a mídia por potins d’amour.

Fazem parte dos ritos e gestuais de políticos no planeta. Tudo bem, se entre uma mentira e outra não despejassem bilhões de dólares de subsídios, em prejuízo de países pobres e emergentes produtores e exportadores agropecuários.

Exemplo? Até hoje o Brasil carrega o contencioso sobre o algodão que ganhou na Organização Mundial do Comércio (OMC). Mais? Pergunte a uma vaca europeia quanto ela ganha por mês? Ela responderá, ainda que através do excesso de gases do efeito estufa que expele.

Historicamente, os Estados Unidos, através de sua Lei Agrícola (Farm Bill), e a União Europeia, com a Política Agrícola Comum, vão no fígado da produção e comércio brasileiros de grãos, açúcar e láteos. Exclusividade nossa, a jabuticaba eles deixam pra lá.

Segundo estudo recente, encomendado pela Confederação Nacional da Agropecuária do Brasil (CNA), o Congresso norte-americano aprovou destinar quase US$ 20 bilhões, entre 2014 e 2018, para dar sustentação a preços e renda de seus agricultores.

A União Europeia não ficou atrás. Dispôs 60 bilhões de euros, entre seus 28 países membros, para proteger a renda do campo.

Nada de novo, sempre foi assim. Nos últimos anos, meio capengas, até ensaiaram diminuir o fluxo dessas tetas. O Brasil conseguiu segurar a barra pela sua competitividade e a alta nas cotações internacionais das commodities agrícolas.

Mas e agora que os primeiros efeitos das altas doses de Biotônico Fontoura começam a fazer efeito nos países desenvolvidos ao mesmo tempo em que a tendência de queda nos preços das commodities agrícolas parece inevitável? O que nos sobrará? Empanturrar a barriga do mercado interno? Ele aguenta? A que preço?

Acreditem: nem as mamatas concedidas aos nossos concorrentes desenvolvidos, nem as tendências para as Bolsas de Chicago ou Nova York, nem qualquer decisão chinesa impondo dieta, nada, mas nada mesmo, me estarrece mais do que as propostas de volta a uma política econômica neoliberal para o agronegócio, expostas em folhas e telas cotidianas pelos economistas de Aécio Neves e Marina Silva.

Pior, e aí é de chorar em pé, pois outra atividade fisiológica poderá sujar-nos, é a aceitação passiva dos outrora combativos e pidões associados, federados e confederados do setor.

Acabo de voltear pelo estado de São Paulo. De produtores a gerente de carteiras de crédito rural, muita gente declarando e sugerindo voto em Marina Silva. Talvez me achem “irmão”, mas logo aviso: sou filho único.

Alguém poderá alegar eu estar em território paulista, onde o único PT aceito é o da Portugal Telecom. Nada disso. Tenho percebido o mesmo em outras regiões.

Valho-me do professor Antônio Delfim Netto, para que mais tarde seus amigos da FIESP não birrem comigo: “O Plano de Safra de 2013/14 foi muito bem recebido pelos agricultores por suas inovações, que revelaram a sensibilidade do governo com relação aos seus problemas logísticos. Todo o crédito programado foi tomado. O novo e excelente Plano de Safra para 2014/15 prevê uma ampliação do crédito de custeio e de investimento de quase 15%, com um pequeno aumento da taxa de juros nominal, mas com as taxas de juros reais continuando muito próximas de zero”.

Assim tem sido nos últimos três governos e precisará continuar a ser.

Não é, no entanto, o que pensam Eduardo Giannetti, conselheiro econômico de Marina, e Armínio Fraga, em entrevista ao jornal Valor: “uma extravagância muito grande na expansão do crédito subsidiado no Brasil”.

Mais incrível é ver o setor agropecuário corroborar com esses pontos.

Do presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ): “Essas reformas são duras, difíceis, politicamente amargas, mas absolutamente necessárias”. Ma non troppo, diria Totó, o comediante italiano.

Logo o Doutor Pastoriza corrige: “Não pode acabar com o Finame. É a única linha de crédito que existe no Brasil para financiar compras de máquinas. (...) Essa linha é absolutamente necessária. Se tirar, os investimentos da formação bruta caem pela metade”.

Sacaram?

Já o diretor executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), Doutor Cornacchioni, questionado se um corte no crédito subsidiado não agravaria ainda mais a situação, negou, jogando com a alta do dólar.  “Vamos ter um período amargo? Vamos. Mas precisa mexer, ou os impactos no longo prazo vão ser piores”.

Até o estimado ex-ministro da Agricultura, no governo Lula, Roberto Rodrigues, depois de declarar voto em Aécio, concorda com os remédios propostos pelos economistas que se tornaram banqueiros, e agora pretender entregar seus ouros pela causa nacional.

Penso: o que acha de tudo isso a senadora Kátia Abreu, com quem muito divirjo, mas reconheço profundo conhecimento da agropecuária?

Seria bom a senhora lembrar à “tchurma” quem a salvou na crise dos preços das commodities e fez, a partir daí, o agronegócio crescer como nunca ...