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Entrevista exclusiva

A oportunidade do pré-sal

por Luiz Antonio Cintra — publicado 07/10/2013 16h52, última modificação 15/10/2013 16h12
Demian Fiocca, ex-presidente do BNDES, diz que Brasil poderia se inspirar na Noruega nos anos 1970; E relativiza o noticiário econômico: "o destaque só é dado quando há um destaque negativo"
Adriana Lorete
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Demian Fiocca: "Estamos em um crescimento moderado, mas não vejo crise, seja de balança de pagamentos ou de confiança"

Ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o economista Demian Fiocca atua desde 2010 na Mare Investimentos, um fundo voltado para aplicar em empresas do setor de petróleo e gás natural. Na entrevista a seguir, Fiocca fala dos investimentos projetados no País a partir da exploração do pré-sal e comenta a conjuntura econômica.

Carta Capital: O que faz a Mare Investimentos?

Demian Fiocca: A Mare é uma gestora de recursos voltada para a área técnica e operações de private equity, com foco no investimento em empresas médias no setor de petróleo e gás. Vendo a grande oportunidade que se criou com o crescimento muito robusto no investimento de petróleo no Brasil, somadas ao fortalecimento da política que busca aproveitar essas reservas naturais para construir uma parcela importante do PIB no Brasil. A principal alavanca dessa política é a exigência de conteúdo local para os investimentos das petroleiras. A nossa estratégia é investir na cadeia de suprimentos que será desenvolvida no Brasil, que já existe, a partir da forte ampliação dos investimentos das companhias à luz da exploração offshore e do pré-sal. Já temos sob gestão cerca de 740 milhões de reais, captados junto a investidores institucionais brasileiros e a pessoas físicas, reunidos em um segundo fundo.

CC: O sr. pode dar um exemplo de investimento?

DF: Fizemos um primeiro investimento, em uma empresa que produz linhas flexíveis para ligar as plataformas flutuantes ao fundo do oceano e os poços entre eles. Parece algo simples, mas é algo muito tecnológico porque precisa suportar pressão externa e interna muito forte, corrosão, temperatura. O mercado mundial de linhas flexíveis é controlado apenas por três empresas: uma francesa, uma inglesa, comprada pela GE, e uma dinamarquesa, comprada por uma gigante com sede em Houston. Depois de um longo período de avaliação da companhia, investimos o equivalente a 50% da companhia, a DeepFlex, o que permitirá a ela ter uma fábrica no Brasil. O controle é dividido, com uma maioria de brasileiros. Nosso objetivo é ser a quarta empresa e passar a ter produção nacional. E temos outros investimentos em fase avançada de negociação.

CC: Há um lobby contra o conteúdo local nos investimentos do pré-sal. Como o sr. vê esse tipo de pressão?

DF: Essa política tem sido aperfeiçoada ao longo do tempo. O atual estágio foi inspirado na experiência norueguesa, de grande sucesso. A Noruega descobriu grandes jazidas de petróleo na década de 1970, um período em que o mundo procurava saídas na dependência do Oriente Médio. O país virou um case e põe em prática a política de conteúdo local. Durante os primeiros anos de desenvolvimento do petróleo na Noruega, o investimento era mais caro do que nos outros lugares do mundo porque tinha de ser feito lá, mas o país estava em um momento da curva de aprendizado. Hoje a Noruega está entre os países mais competitivos no segmento de petróleo. Então essas políticas servem como um impulso para se superar a curva de aprendizado. Mas, uma vez que se desenvolve a indústria, não há razão para não se acreditar que o Brasil se tornará um dos países mais competitivos. Hoje a Noruega não só é competitiva, como tem 45 empresas na bolsa de valores do setor de petróleo, serviços, fornecedores e outros. O Brasil tem dois ou três só.

CC: Alguns meses atrás saiu uma capa da revista The Economist comparando o petróleo a um dinossauro, ou seja, como algo em vias de extinção.

DF: Não acredito muito nisso, especialmente quando vemos o nível de investimentos no setor de petróleo. A matriz energética mundial ainda é, grosso modo, baseada em cerca de 66% em petróleo e carvão, 10% hidroelétrica, 10% biomassa, 10% nuclear. E uma porcentagem muito pequena das fontes alternativas, como geotérmica, eólica e solar. Essa divisão deveria ser repensada, inclusive porque a energia hidrelétrica realmente é uma energia limpa, sustentável e duradoura.Defendo a tese de o mundo deveria patrocinar e facilitar mais o investimento em outras fontes de energia, caso contrário a demanda por energia fóssil, como petróleo e carvão, continuará forte.

CC: Mas aí surgem os problemas ambientais, indígenas. E parece não haver uma opção boa.

DF: Pois é, há uma dificuldade colocada por uma visão parcial das coisas. Se a avaliação de qual estratégia seguir na área energética for feita a partir do que cada um não gosta, o resultado final não é satisfatório. Fazer mais reservatórios é algo que expande uma fonte renovável que não produz efeito-estufa. É algo economicamente muito bom porque o custo é baixo. E os conceitos de preservar, deixar intacta a vegetação ou de não deslocar uma comunidade que está ali precisam ser vistos com bom senso, à luz do interesse público e dessas minorias. Tudo é uma questão de proporção.

CC: Qual o horizonte dos investimentos para o pré-sal, estimados em 150 a 250 bilhões de dólares?

DF: Em ordem de grandeza, é coisa de 10 anos. Tem um período inicial, mais exploratório, depois tem um segundo período, de desenvolvimento, que é o principal do investimento. E depois tem os investimentos adicionais. A indústria offshore é de alta tecnologia, portanto estamos falando de um desenvolvimento que traga tecnologia, desenvolvida nas empresas de petróleo e também a necessidade de uma cadeia de suprimentos. É um setor de recurso natural, mas é um setor avançado da indústria. Não é como algumas commodities, ela paga bons salários, desenvolve uma rede industrial e tem um grande impacto na economia sim.

CC: Nos últimos meses o noticiário anda muito negativo em relação à economia brasileira. O sr. está otimista?

DF: O Chico Lopes (ex-presidente do BC) fez um artigo interessante no Valor Econômico em que fala que estaríamos em um momento em que analistas e mesmos especialistas estariam envoltos no hábito de só prestar atenção às notícias que lhes interessam. Acho correta a análise. Temos visto uma economia com sinais mistos, mas o destaque só é dado quando há um destaque negativo. Outro aspecto: estamos em um crescimento moderado, mas não vejo crise, seja de balança de pagamentos ou de confiança.

CC: A conjuntura não o preocupa?

DF: Não vejo um problema conjuntural iminente. Acho que temos de desburocratizar a execução dos projetos em geral, de quase tudo. Temos esse problema no processo interno de decisão do Estado, e temos isso nos processos exigidos do setor privado para cumprir todas as normas, leis e requerimentos. O País está sendo travado por um excesso de burocracia. No entanto, me parece que o desenvolvimento natural das sociedades democráticas não é corrigir isso, mas agravar. Porque com a dinâmica da opinião pública, da mídia e da disputa política, a resultante vai sempre no sentido do que possa estar errado. É o desvio, o cartel, o desmando, em todas as áreas e em todos os matizes. E a resposta da sociedade a isso é mais controle, mais fiscalização. Quando um procurador para uma obra, a mídia fala “olha que ótimo”. Não estou dizendo que não deva haver um equilíbrio entre cuidar do meio ambiente e do social, mas a tendência da sociedade não é ir ao bom senso, e a burocracia tende a ser cada vez maior, o que encarece os processos.

CC: O potencial das reservas de petróleo e gás do pré-sal é capaz de reconfigurar a indústria no País?

DF: Para você ter uma ideia, só o campo de Libra, a estimativa da ANP é que haja de 8 a 12 bilhões de barris. O custo de desenvolvimento por barril é de 10 a 15 dólares. O que não é muito diferente de outras áreas do mundo que fazem exploração em áreas profundas. Portanto nós estamos falando de algo como que 150 a 250 bilhões de dólares de investimento. O PIB do Chile é 250 bilhões de dólares. É muito grande o que temos pela frente em termos de desenvolvimento de petróleo.

CC: Qual o horizonte desses 150 a 250 bilhões em investimentos?

DF: Em ordem de grandeza, é coisa de 10 anos. Tem um período inicial que é mais exploratório, depois tem um segundo período, que é mais desenvolvimento mesmo, que é o principal do investimento, depois tem os investimentos adicionais. Porque o que acontece: a indústria do petróleo, principalmente a indústria offshore, é de alta tecnologia, e portanto nós estamos falando de um desenvolvimento que traça tecnologia, desenvolvida nas empresas de petróleo e também a necessidade de uma cadeia de suprimentos com conteúdo tecnológico. É um setor de recursos naturais, mas é um setor avançado da indústria. Não é um setor como o de algumas commodities. Paga bons salários, desenvolve uma rede industrial, tem um grande impacto na economia sim.

CC: E como o sr. vê a participação da Petrobras?

DF: Uma questão para ser avaliada, no futuro, é a obrigatoriedade da Petrobrás como operadora. Por que? A Petrobrás tem hoje talvez outros 10 bilhões de barris a desenvolver. Ela tem 15 bilhões já provados e pode ter mais 10, que é a média de Libra. E portanto fica a dúvida se a Petrobras deveria concentrar tudo, se não será demais (tocar todos esses investimentos)? Tem gigantes mundiais que exploram mais do que a Petrobras, mas são empresas mais antigas, mais diversificadas.  Ao privilegiar a Petrobras se consolidaria parte do interesse público. No entanto, o que garante uma maior participação do interesse público, no limite, é o direito da Petrobrás participar. Não necessariamente a obrigação dela operar tudo. A empresa poderia escolher e isso permitiria aopaís não retardar o desenvolvimento do setor simplesmente porque é grande demais para ser desenvolvido por uma empresa só. Onde a Petrobrás entender que sim, que é de seu interesse e o interesse público for favorecido pela participação da empresa, ela entraria. Caso contrário, não, e se criariam outros arranjos para que o país pudesse mobilizar mais recursos e a Petrobrás não ficasse sobrecarregada.