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A mãe de todas as bolhas financeiras

por Envolverde — publicado 09/10/2013 04h58, última modificação 28/11/2013 17h17
Furar a bolha financeira mundial e impedir que explore ainda mais os cidadãos e os ecossistemas exige enfrentar as falsas filosofias do “economismo”
Andrew Burton / Getty Images North America
Bolsa de Nova York

Operador da Bolsa de Nova York no início de outubro

Por Hazel Henderson

Enquanto nosso clima se desestabiliza, as cidades inundam, as florestas queimam, os cultivos são arruinados pela seca e a contaminação radioativa vaza para a água e o solo, muitos contadores e analistas políticos estão despertando.

São seguidos por organizações não governamentais, dirigentes sociais, informantes e uns poucos políticos que pensam no interesse público.

A grande mensagem é que a arraigada, mas falsa, filosofia do “economismo” e seus dogmas estreitos e antiquados são o vírus oculto que propaga a “financialização” e a destruição social e ecológica.

Este código-fonte se propaga por todo o mundo, se apropria da tomada de decisões públicas e privadas, e faz caso omisso de pesquisas científicas em outras disciplinas que demonstram a situação real dos 7,5 bilhões de pessoas que integram nossa família humana neste planeta.

A mudança é difícil, especialmente em muitas mentes humanas, como escreveu meu falecido amigo Thomas Kuhn, em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, em 1962. Os novos paradigmas se introduzem nos sistemas sociais “um por vez com cada funeral”.

Mahatma Gandhi (1869-1948) recordava: “Primeiro te ignoram, depois riem de ti, em seguida te atacam, então ganhas”. As pesquisas nos Estados Unidos mostram que ainda cerca de 40% do público não acredita na evolução das espécies, enquanto muitos políticos continuam negando a ciência e a mudança climática.

Estudiosos do comportamento demonstram que nossos cérebros se encerram nos hábitos de pensamento, amplificando frequentemente nosso temor à mudança e ao “outro”, emoções primitivas que estão assentadas na amídala cerebral.

Isto limita o desenvolvimento pessoal como as políticas públicas, enquanto ouvimos os políticos repetindo que “não há alternativa” às velhas ideias ou ao status quo criado pela bolha financeira: austeridade e cortes em serviços públicos, empregos, educação, saúde e proteção ambiental. Outros culpam Deus pela contaminação ambiental e as alterações climáticas causadas pelos seres humanos.

Outros, entre os quais me incluo, previram a crise financeira de 2008 e a miséria imposta sobre tantas populações em todo o mundo. Wall Street se transformou, passando de firmas e associações de baixo porte e pequenos manipuladores a corporações e fundos de investimentos gigantescos e enredando à sua passagem políticos e reguladores famintos.

Essas firmas financeiras capitalizaram a infraestrutura pública, os recursos comuns não protegidos e as tecnologias de comunicação mais novas, computadores, internet e satélites financiados pelos contribuintes.

Os políticos dóceis ajudaram as finanças a se globalizarem depois do “big bang” que implicaram as desregulamentações e privatizações de Ronald Reagan e Margaret Thatcher nos anos 1980. O dinheiro foi enviado para o exterior, colocado em paraísos fiscais, como detalhou o britânico Nicholas Shaxson.

Isto culminou na bolha financeira mundial da atualidade, com mais de 4 trilhões de dólares em divisas comercializadas diariamente, quintilhões de derivados gerados por megabancos e agentes de bolsa irresponsáveis.

As firmas com ações nas bolsas de alta frequência colocam e cancelam milhares de milhões de ordens por segundo, valendo-se de truques para obter informação sobre tendências antes de outros investidores, tudo em instáveis plataformas informatizadas e programadas por algoritmos que costumam falhar.

Este mau uso das tecnologias para a informação e a comunicação financiadas pelo público levou às minicrises reiteradas desde a execrável quebra de maio de 2010, e continuaram com o colapso do índice Nasdaq da Bolsa de Nova York, em 22 de agosto deste ano.

Todos os esforços para regular e reduzir esta destrutiva bolha financeira, e devolver as finanças ao seu papel modesto de apoiar as economias reais e locais, batem de frente com a feroz oposição de lobistas em Wall Street, Londres, Washington, Davos e entre seus grupos de especialistas financiados por privados e por intelectuais mercenários que trabalham para qualquer governo.

Economistas e acadêmicos bem dotados e seus departamentos universitários apoiam as ortodoxias econômicas, equiparando os mercados “livres” com a liberdade e os direitos individuais. Todas estas políticas se baseiam ainda em “externalizar” os custos sociais e ambientais, jogando-os sobre os ombros de outros, contribuintes e gerações futuras.

Esta perniciosa filosofia do “economismo” permanece incólume, o que se vê inclusive no fato de ainda se falar dos ganhadores do Prêmio do Banco da Suécia em “Ciências” (sic) Econômicas como um prêmio Nobel real. Durante décadas, houve resistência até à correção das contas para incluir “fatores externos”.

Em 1992, 170 governos do Artigo 40 da Agenda 21 (o Programa 21), na Cúpula da Terra da Organização das Nações Unidas (ONU), acordaram incluir em seu produto interno bruto (PIB) o trabalho não pago de milhões de pessoas dedicadas à agricultura tradicional, às tarefas domésticas e às atividades comunitárias voluntárias.

Experimentei esta resistência da profissão econômica e dos ministérios de Finanças, Economia e Comércio, enquanto era conselheira de ciência política em Washington na década de 1970.

Estatísticas de outras disciplinas, que medem as brechas de pobreza e o desempenho real em saúde, educação, habitação, infraestrutura pública e monitoramento ambiental, ficaram relegados a contas “satélite”, em lugar de serem integradas às medidas mais amplas de progresso nacional além do PIB.

Somente em 1995, o grupo pioneiro do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) publicou em seu Informe de Desenvolvimento Humano uma estimativa do valor mundial do trabalho produtivo não pago: US$ 11 trilhões de trabalho realizado por mulheres e US$ 5 trilhões por homens, que simplesmente não figuram nos US$ 24 trilhões oficiais de PIB mundial registrados naquele ano.

Assim, a maioria das sociedades é muito mais rica do que os economistas admitem, tanto em habilidades humanas que não têm preço, como em bens ambientais, como exposto durante décadas por pesquisadores sociais e ecologistas.

Informes recentes, encomendados pela ONU à TEEB, Trucost e outros, mostram que milhares de milhões contabilizados por algumas corporações como “lucro” são compensados por maiores custos e perdas ambientais e sociais.

Furar a bolha financeira mundial e impedir que explore ainda mais os cidadãos e os ecossistemas exige enfrentar as falsas filosofias do “economismo” e seus seguidores no governo, no empresariado e na academia, além de seus operadores nos mercados financeiros.

Uma vez que se considere o “economismo” como ideologia obsoleta e falida e se exponham suas “inovações” financeiras como abstrações matemáticas, deixaremos de voar às cegas.

A contabilidade é uma profissão mais realista do que a macroeconomia. O aumento de novos protocolos de contabilidade realistas está fornecendo novas rodas para a mudança social rumo a sociedades mais sãs, inclusivas e equitativas, mais verdes e mais ricas em conhecimento.

Agora os contadores começam a medir seis formas de capital: físico (prédios, pontes, etc.), financeiro (dinheiro como a unidade contável aceita), humano (talento, energia, suor), social (associações, comunidade, instituições), intelectual (conhecimento) e natural (biodiversidade, serviços do ecossistema).

Esta nova métrica para avaliar o desempenho de firmas corporativas e financeiras, bem como cooperativas, empresas sociais e associações comunitárias, foi crescendo silenciosamente durante décadas em fundos éticos e socialmente responsáveis, pensões, fundações e doações, administradores de bens, empresários, cientistas inovadores e reformistas monetários.

Os novos protocolos de contabilidade são multidisciplinares e integram muitos fatores fundamentais para analisar o desempenho das empresas na hora de criar ou destruir valor.

Nesta nova tendência podemos mencionar a Global Reporting Initiative, Integrated Reporting, Association of Chartered Certified Accountants, The Institute of Chartered Accountants in England and Wales, American Institute of Certified Public Accountants, Sustainability Accounting Standards Board, junto com The Network for Sustainable Financial Markets e as administradoras pioneiras de bens Domini, Calvert e Innovest. Bloomberg, Dow Jones e outros já as refletem.

As organizações não governamentais pautam estas mudanças com seu trabalho e as colaborações com agências da ONU, como a Green Economy Coalition, o Fórum Social Mundial desde 2001, e aquelas ativas desde a Conferência Internacional para o Financiamento sobre o Desenvolvimento, realizada em 2002, em Monterrey, no México, às quais se uniram este ano muitos especialistas em finanças de longo prazo.

Na medida em que são necessárias, são feitas mudanças e os investimentos privados se voltam para os setores verdes em todo o mundo desde 2007. Os defeitos fatais do “economismo” subjacentes na crise de 2008 agora ficam expostos e há reformas em curso. Mas as organizações não governamentais devem permanecer vigilantes, se querem que as finanças “muito grandes para caírem ou pagar com prisão” se transformem de cassino global em um setor de serviços públicos. Envolverde/IPS

* Hazel Henderson é presidente do Ethical Markets Media (Estados Unidos e Brasil) e criadora do Green Transition Scoreboard (IPS)

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