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A Itália vai ser a próxima Grécia?

por Deutsche Welle publicado 23/07/2015 02h53
Terceira maior economia do euro dá pequenos sinais de recuperação, mas observadores temem que isso se deva a fatores externos e não a reais mudanças estruturais
Tiberio Barchielli / Palazzo Chigi
Matteo Renzi

Matteo Renzi, o premiê italiano: há dúvidas sobre a situação da economia do país

Há alguns poucos anos, a Itália ameaçava cair e arrastar toda a Europa para uma depressão por causa da sua economia estagnada, sua dívida mastodôntica e sua incapacidade de cortar a gordura do seu inchado setor público.

Embora o coro de vozes anunciando o apocalipse – e os investidores que apostaram contra uma reviravolta – tenha arrefecido, a terceira maior economia da zona do euro ainda está titubeando, incerta sobre seu futuro.

Cinzia, uma empresária que, junto com as irmãs, administra uma histórica confeitaria no norte de Roma, diz que está prestes a tirar férias curtas na Grécia e que voltará logo a Roma para trabalhar durante o resto do verão. Há alguns anos, a família dela acabou com a longínqua e sacrossanta tradição romana de fechar a loja durante todo o mês de agosto.

"As pessoas não viajam mais no verão", diz Cinzia. "E, com a crise econômica, nós não podemos nos dar o luxo de perder clientes caso a loja permaneça fechada por uma semana."

Acabaram-se os dias em que a confeitaria prosperava graças a uma base leal de clientes que gastava livremente em doces e bolos em qualquer ocasião especial. "Com a recessão, nós tivemos que trabalhar duro para expandir nossa base de clientes porque todos estão sendo muito, muito cuidadosos com seus gastos, selecionando somente alguns itens especiais e produzindo o restante em casa."

Como muitos italianos, Cinzia se adaptou aos novos tempos – no seu caso, ela tem resistido à crise sem demitir trabalhadores – e não vê as mudanças como um revés temporário, mas como uma nova normalidade.

E isso tudo apesar dos sinais tímidos de que a Itália vem exibindo uma recuperação econômica. A produção industrial cresceu 3% no último trimestre, sobretudo por causa dos ainda importantes setores automobilístico e de maquinaria do país.

O primeiro-ministro Matteo Renzi saudou o crescimento como uma prova do funcionamento das reduções tributárias sobre investimentos, do bônus fiscal mensal de 80 euros para pessoas de baixa renda e do corte nos impostos introduzidos pelo seu governo como parte de uma política de emprego.

Ele também anunciou que o desemprego caiu e que os contratos de trabalho de longo prazo estão aumentando.

Mas muitos observadores dizem que isso não passa de marketing político: um número elevado de pessoas saiu permanentemente do mercado de trabalho e já não está mais sendo considerado na contagem de desempregados. E os contratos de longo prazo não representam novos empregos sendo criados, mas pessoas que estão apenas trocando a natureza dos seus atuais contratos de trabalho.

Mesmo o pequeno crescimento na produção industrial pode ser em grande parte explicado por fatores externos, como a queda no preço do petróleo, o euro mais fraco que ajuda as exportações, empréstimos mais facilmente disponíveis. Além das taxas de juros mais baixas devido ao influxo de dinheiro para os bancos graças a uma intervenção do Banco Central Europeu. São fatores que podem mudar do dia para a noite.

Ainda assim, o jovem e enérgico Renzi está retirando todas as barreiras para alavancar a ideia de que a confiança na economia italiana está em ascensão. Esta semana ele anunciou "um pacto com os italianos", com cortes de impostos no valor de mais de 50 bilhões de euros nos próximos cinco anos, incluindo a eliminação de um odiado imposto sobre propriedade na compra da primeira casa.

No entanto, a dívida pública da Itália continua a assombrar, representando 130% cento do Produto Interno Bruto (PIB) – a segunda maior taxa na Europa, atrás apenas da Grécia. E, apesar do apoio de Renzi aos apelos dos gregos por menos austeridade e mais ajuda voltada para o crescimento, quando a situação ficou crítica, ele instou a Grécia a aceitar a oferta da Europa. Ele estava bem ciente que a Itália poderia perder mais de 40 bilhões de euros em empréstimos diretos para o país se a Grécia desse o calote e deixasse o euro.

Mas, mesmo que muitos italianos continuem frustrados com a ineficiência do setor público do país, o fardo dos impostos e a corrupção persistente, eles não acreditam que a Itália pode ser a próxima Grécia.

"O único risco para a Itália é se as grandes instituições financeiras decidirem atacar o país", afirma o ex-membro do gabinete da coalizão de esquerda e comentarista Alfonso Pecoraro Scanio Pecoraro Scanio. "Isso aconteceu há alguns anos, quando acreditaram que não éramos fortes o suficiente. Agora que já fizemos algumas mudanças, o sentimento na Itália é de estabilidade porque nós dissemos 'sim' às mudanças que as instituições financeiras queriam que fizéssemos."

Ele, como muitos italianos, está mais preocupado com a crise grega sob a perspectiva de quais vão ser as consequências para a Europa. "O projeto da Europa era sobre solidariedade, sobre crescer juntos e evitar guerras. Agora estamos vendo uma espécie de guerra econômica entre Alemanha e Grécia", disse ele. "Mas, claro, precisamos dizer aos gregos, você têm que fazer reformas."

Cinzia concorda. Enquanto ela se prepara para suas férias anuais nas ilhas gregas, ela diz que não consegue se lembrar de receber um recibo em qualquer restaurante ou hotel do país. "A Itália tem seus problemas", diz ela, "mas a Grécia tem um longo caminho a percorrer para recuperar o atraso em relação ao resto da Europa, ou mesmo em relação à Itália".

Deutsche Welle

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