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A inflação aleija, o câmbio mata

por André Siqueira e Gerson Freitas Jr. — publicado 26/04/2011 16h14, última modificação 28/04/2011 10h51
A desindustrialização é um risco cada vez mais presente no horizonte
A inflação aleija, o câmbio mata

A desindustrialização é um risco cada vez mais presente no horizonte. Por André Siqueira e Gerson Freitas Jr. Foto: Rodrigo Paiva/Folhapress

Única em seu segmento e dona de 70% do mercado brasileiro de ímãs de ferrite, usados em alto-falantes e motores, a empresa paulistana Supergauss está em posição muito mais frágil do que sugere esta breve descrição. Trata-se da sobrevivente em um mercado que, há menos de dez anos, era dividido entre três grandes fabricantes. Os outros dois sucumbiram ante a concorrência de mais de 150 fornecedores chineses, capazes de oferecer o mesmo produto com preços 20% a 30% inferiores ao do similar nacional, mesmo com uma tarifa antidumping de 43%, em vigor há 13 anos.

Se os 200 empregados da Supergauss continuam a produzir 400 toneladas de ímãs de ferrite ao mês, e as contas da empresa ainda fecham no azul, é graças a uma nova linha de produtos, os ímãs de neodímio. A variedade, que equipa aparelhos de tamanho mais reduzido, de telefones celulares e computadores a micromotores, tem maior valor agregado. O problema é que o item só leva a etiqueta da empresa brasileira. É importado, e justamente da China.

“Continuamos no mercado porque muitos clientes querem fornecedores locais”, diz o diretor da Supergauss, Roberto Barth. “Investimos em produtividade nos últimos anos e apostamos na atuação do governo para barrar a importação ilegal. Mesmo assim, parte do mercado é abastecida por importadores que trazem o produto chinês com certificado de origem falsificado em países como Malásia e Taiwan.” Nesse último caso, o diferencial de preço sobe para 50% a favor dos ímãs importados.

Com todas as dificuldades para encarar a concorrência chinesa, que passam pelos custos tributários, logísticos e de mão de obra, a valorização do real em relação ao dólar é indiscutivelmente a maior ameaça. Um estudo realizado pelo Centro de Macroeconomia Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP) conclui que a taxa de câmbio real está 22% abaixo da taxa de equilíbrio.

Uma das principais razões para o câmbio desajustado é a diferença entre as taxas de juro internacionais e as oferecidas pelo governo brasileiro, muito mais altas. Mas no momento não há o que o governo possa fazer. A moeda valorizada é uma via de mão dupla. Rouba competitividade da indústria, mas tem o poder de inflar o poder de compra dos brasileiros e complementar a produção doméstica. Os importados mais baratos facilitam o controle da inflação, prioridade neste instante.

Entre as autoridades da área monetária, a compreensão é a de que, embora o ritmo de crescimento da economia dê sinais de arrefecimento, ainda é cedo para baixar os juros. Ao contrário, é provável que o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncie uma nova elevação da taxa Selic na quarta-feira 20, entre 0,25 e 0,5 ponto porcentual.

Às pressões do mercado financeiro por elevações ainda maiores de juros, na forma de expectativas de inflação cada vez mais elevadas, o presidente da instituição, Alexandre Tombini, tem resposta pronta: o BC brasileiro foi o que mais elevou as taxas em 2011 (1 ponto porcentual). Ele tem repetido a interlocutores que, dos 21 países que utilizam o regime de metas de inflação, somente Suíça e Noruega não devem ultrapassar o teto estabelecido. Diante desse quadro, o BC informou ao mercado que somente em 2012 será possível trazer os índices de preços para o centro da meta (4,5% ao ano).

O BC acredita que a inflação corrente deverá recuar para patamares aceitáveis nos próximos meses, ainda que os índices acumulados em 12 meses tendam a se manter elevados até o fim do terceiro trimestre, por efeito estatístico (no mesmo período de 2010 os preços ficaram praticamente estagnados).

Até lá, restará ao governo se concentrar em políticas de estímulo fiscal e proteção aos setores mais vulneráveis à concorrência externa. Especialistas também alertam para a importância do esforço diplomático na área comercial, a exemplo da viagem da presidenta Dilma Rousseff à China (reportagem à pág. 22).

Se os importados ficam mais baratos aqui dentro, também é sabido que a produção brasileira fica mais cara no exterior. No caso das commodities, o problema é menos sensível. Como não pode prescindir da soja, das carnes e do minério de ferro brasileiros, o mundo vai desembolsar os dólares necessários para que os produtores locais se disponham a ofertar esses itens – o que explica, em parte, a escalada dos preços internacionais das matérias-primas.

A indústria, sob forte concorrência externa, encara um cenário bem mais preocupante. No ano passado, as importações de produtos manufaturados cresceram 45%, para mais de 150 bilhões de dólares. As exportações do segmento cresceram 18%, mas não chegaram a 80 bilhões. Resultado: um déficit de mais de 70 bilhões de dólares, quase duas vezes maior do que o registrado em 2009.

Dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostram que os produtos industrializados importados abocanharam mais da metade (54%) da expansão do consumo entre 2008 e 2010. Em alguns setores, o problema é ainda mais nítido. No segmento de máquinas e equipamentos industriais, toda a expansão da demanda nos últimos dois anos foi suprida por bens vindos de países como a China, a Coreia do Sul e a Alemanha. Comportamento parecido tiveram a siderurgia, os têxteis e os artigos de vestuário.

“Estamos assassinando a indústria. Os produtores estão se tornando importadores”, afirma Luiz Aubert Neto, presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Em 2004, o Brasil produzia 60 de cada 100 máquinas utilizadas pela indústria. Hoje, produz 40. E embora as vendas de máquinas e equipamentos tenham dobrado nos últimos cinco anos, o faturamento e o emprego no setor permanecem praticamente estagnados. “O problema é de competitividade. O mercado se expande, mas a indústria não cresce ou cresce menos do que poderia”, afirma Rogério César de Souza, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

O professor da UFRJ David Kupfer, especialista em economia industrial, afirma que a crise de competitividade brasileira é “amortecida” pela expansão da demanda doméstica e “mascarada” por índices de atividade que colocam sob o mesmo rótulo quem é capaz de crescer e quem está sendo expulso do jogo. “O mercado interno cresce em uma taxa satisfatória para fomentar a atividade industrial, mas há disparidades entre os setores, o que torna difícil expandir homogeneamente a produção.”

Mantido no longo prazo, o câmbio valorizado tende a mudar a estrutura produtiva de uma economia. O mercado se ajusta e privilegia o investimento nos setores mais rentáveis. Impulsionados pelo aumento da renda interna, os mercados imobiliário e de serviços – que não podem ser transacionados no exterior e, portanto, não sofrem concorrência externa – são os exemplos mais evidentes. Nos últimos cinco anos, o preço dos imóveis praticamente dobrou, e o investimento em novas moradias bateu recorde. “O câmbio tem nos levado a produzir bens não exportáveis e a importar bens transacionáveis, o que leva a um desequilíbrio externo”, alerta Paulo Gala, um dos autores do estudo da FGV.

A produção de matérias-primas é outra vencedora neste cenário. Segundo o BNDES, os investimentos industriais devem somar 614 bilhões de reais entre 2011 e 2014 (gráfico à pág. 27). Só o setor de óleo e gás deverá absorver 378 bilhões ou 61,5% do montante total. Em segundo lugar está o segmento de extração mineral, que deverá investir 62 bilhões ou 10,2% do total previsto. Cada vez mais, portanto, o investimento industrial é canalizado para a produção de itens de baixo valor agregado.

A tendência alimenta os temores de que o País tenha iniciado um movimento de desindustrialização. Neste caso, o Brasil estaria inserido no comércio internacional como produtor e exportador de matérias-primas e importador de manufaturados. Embora os números da balança comercial assustem – 75% das exportações já são de produtos primários –, ainda faltam indícios de um desmonte do parque industrial.

Kupfer não considera que o Brasil tenha entrado em um processo de desindustrialização, mas alerta que o cenário piorou desde que o debate foi proposto, há mais de cinco anos. “O que antes era uma possibilidade, hoje é uma ameaça presente. Durante todo esse tempo a taxa de câmbio manteve-se em elevação, e agora os juros voltam a subir e o mercado interno dá sinais de que não crescerá mais tão depressa.”

Outra preocupação são as contas externas. O saldo das transações correntes entre o Brasil e o exterior acumula um rombo próximo de 50 bilhões de dólares – ou 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) – nos últimos 12 meses, segundo dados do Banco Central. Por enquanto, o prejuízo é mais do que coberto pelos dólares que entram na forma de investimentos, empréstimos e aplicações financeiras, a chamada conta de capital, reflexo do excesso de liquidez no mercado internacional e da euforia dos investidores com o Brasil.

Nenhum país latino-americano, Brasil incluído, conseguiu sustentar por muito tempo o modelo de dependência de dinheiro externo para fechar as contas, embora países com a Austrália sejam sempre citados como exemplo de que isso seja possível. “O grande risco que se corre hoje é o aumento do endividamento externo que decorre da ampliação do déficit em conta corrente. Enquanto os investidores estrangeiros estão otimistas, há financiamento farto. Caso o humor mude, o estrago é grande, como já vimos por aqui em 1999, 2002 e 2008, na Argentina, no México e na Ásia”, afirma Gala, da FGV.

Ou seja, se o apetite dos investidores estrangeiros pode provocar distorções temporárias, tampouco são inexpressivos os efeitos adversos de sua saída abrupta. Daí o cuidado do governo de evitar as medidas mais radicais sugeridas pela ortodoxia econômica, como a elevação exagerada dos juros ou o corte de gastos em programas de distribuição de renda e investimentos em infraestrutura. Até porque a desaceleração da economia começa a se tornar visível nos últimos indicadores.

O Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br) mostra que o ritmo de crescimento caiu para menos da metade entre janeiro e fevereiro (gráfico à pág. 28). A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do IBGE revelou, em fevereiro, a primeira queda no varejo, de 0,4% mês a mês, após nove altas consecutivas. E a geração de empregos na indústria paulista em março, medida pela Fiesp, foi de apenas 0,65% sobre fevereiro, resultado negativo se excluídos os fatores sazonais.

Desde dezembro o BC adota medidas para conter a parcela especulativa do capital que entra no País e, de quebra, evitar que empresas se endividem excessivamente e bancos usem o dinheiro barato de fora para ampliar a oferta de crédito (gráfico nesta página). A iniciativa mais recente, a imposição de alíquota de 6% de IOF para as captações externas com prazo inferior a dois anos, começa a surtir efeito. Na primeira semana após a medida, a saí-da de dólares superou os ingressos. Mesmo assim, o ano acumula um saldo positivo 46% superior ao de todo o ano de 2010.

Em um relatório divulgado em março, o FMI defendeu, pela primeira vez, o controle do fluxo de capitais nos mercados onde a entrada de dólares tem causado a apreciação excessiva das moedas locais. “Os controles de capitais estão na caixa de ferramentas”, reiterou o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, na quinta-feira 14, na coletiva de imprensa que tratou da reunião do fundo e do Banco Mundial marcada para o fim de semana. O diretor aproveitou a deixa para se queixar da perplexidade de participantes do fundo, a seu ver “mais católicos do que o papa”, quanto à mudança de orientação da entidade.

Gala acrescenta que a entrada excessiva de capital induz a um crescimento artificial. “Todos ficamos mais ricos, mas por conta do dólar. A renda não foi acompanhada de um salto de produtividade.”

Mesmo assim, o professor da FGV admite que a situação é muito melhor do que já foi no passado. As reservas internacionais, próximas de 300 bilhões de dólares, equivalem a mais de 13% do PIB, para uma dívida externa que não passa dos 12,1%. Ou seja, pela primeira vez em sua história recente, o Brasil parece ter fôlego para enfrentar um ataque especulativo contra a sua moeda. Mais do que isso, a descoberta do pré-sal e os investimentos previstos para a Copa do Mundo e as Olimpíadas parecem assegurar alguns anos de otimismo. •