Você está aqui: Página Inicial / Economia / O faroeste das finanças

Economia

Entrevista - Paulo Nogueira Batista Jr.

O faroeste das finanças

por Luiz Antonio Cintra — publicado 12/02/2014 12h29
Após a crise, o progresso para a regulação dos mercados foi modesto e insuficiente, diz o diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional Paulo Nogueira Batista Jr
José Cruz / Agência Brasil
Paulo Nogueira Batista Júnior

O diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional, Paulo Nogueira Batista Júnior

Indicado em fevereiro de 2007 para representar o Brasil e mais dez países no cargo de diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional, o economista Paulo Nogueira Batista Jr., antes de começar a entrevista, avisa que falará em “caráter pessoal”, não em nome do FMI ou dos países por ele representados.

A observação lhe dá liberdade para tecer comentários ácidos sobre a onda de turbulência que agita as Bolsas e os mercados de câmbio dos emergentes. Na raiz do problema, o lobby dos bancos e a ausência de regras internacionais. “Os principais países avançados não enfrentam os lobbys financeiros, então o progresso feito em termos de regulação foi modesto e insuficiente”, diz o economista.


"Hoje as crises são pontuadas por breves períodos de estabilidade". Outro dia, diante da nova fase de turbulência, me lembrei de que comecei a trabalhar como economista em 1979, já sou um veterano. Em toda a minha vida profissional, e isso vale para a minha geração e para a geração seguinte, estamos marcados por crises financeiras sucessivas, ora é a crise latino-americana da dívida, ora a crise do México dos anos 1990, Rússia, Leste da Ásia, a bolha dot.com, a bolha do subprime, a crise financeira do Atlântico Norte, a crise da área do euro, e estou citando apenas alguns exemplos...

A minha geração de economistas ficou dominada por esse tipo de problemática. Já a geração do Celso Furtado e do Raul Prebisch se preocupou com problemas de longo prazo, de desenvolvimento, justiça social, progresso técnico... Nós, não, nós somos afogados pela sucessão de crises, e o nosso horizonte se encurtou. Até os anos 1980, o desenvolvimento de longo prazo das economias capitalistas era pontuado por crises. Agora, inverteu, as crises são pontuadas por breves períodos de estabilidade e desenvolvimento.

Na segunda metade da primeira década do século XXI, tivemos um período chamado de “grande moderação”, uma péssima denominação, aliás, altamente ilusória, mas logo veio a crise de 2008. Agora, pouco tempo atrás, o Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, em um almoço aqui no fundo, me disse que estamos ficando “sem riscos extremos”, a situação estaria melhorando. Fiquei alarmado porque o que fará a nossa geração sem as crises? Estamos praticamente viciados na adrenalina das turbulências (risos)... Fomos salvos pelo gongo com a atual crise dos emergentes, incipiente ainda. Ou seja, não há respiro. E por quê? Os historiadores vão se voltar para esses 40 anos e se perguntarão sobre o que porquê de tantas crises mais ou menos contínuas, pontuadas por períodos de relativa estabilidade.

Se fosse para escolher, eu destacaria o que chamo debochativamente de a “turma da bufunfa” em escala internacional, não apenas no Brasil, obviamente. É uma hipertrofia do sistema financeiro desregulado, sobretudo a dimensão internacional, porque a dimensão doméstica ainda consegue estabelecer algum tipo de regra. Mas a parte mundial é uma espécie de faroeste das finanças, onde não existe um entendimento entre as autoridades nacionais que permita frear os movimentos desestabilizadores do mercado privado. Então é o salve-se quem puder.


"Agências de risco: não adiantou apontar os erros do passado".
Quando estourou a crise de 2008, uma das coisas que mais se destacou na crítica ao funcionamento dos mercados de capitais foi o papel das agências de rating. Todo mundo dizia que as agências tinham fracassado redondamente, que era preciso reformar a maneira de funcionamento dessas agências. E o que foi feito? Eu não vi nada.

A inércia nos arranjos internacionais dos mercados de capitais é espantosa. Todo mundo continuou se referindo às três grandes agências de classificação de risco, grandes em tamanho, não na qualidade de desempenho, porque não se encontrou outro mecanismo de fazer avaliações rápidas de países e empresas.

Mas o fato é que, apesar de tudo, ainda dão importância a essas agências, não adianta espernearmos e apontarmos os erros do passado. São avaliações cujo papel é magnificado pela forma de atuação dos mercados financeiros. Os mercados operam com horizontes muito curtos, não querem investir em examinar com profundidade nenhum mercado nem país, então se baseiam em selos de qualidade, que são dados ora pelo FMI, ora por agências, e embarcam nessas canoas.

Então o Brasil, apesar de saber disso tudo, não irá confrontar essas agências e precisa levar em conta o que elas dizem. Mas no caso brasileiro não é um rebaixamento iminente, mas de viés. Por isso todos os países, inclusive os avançados, precisam prestar homenagem a elas. É aquilo que o Nelson Rodrigues chamava de o "triunfo do idiota".

"Quando a crise refluiu nos EUA, o apetite por coordenação diminuiu". Depois da crise de 2008, houve um movimento, no âmbito do G20, do FSB (Financial Stability Board, do governo dos EUA), do BIS (Bank for International Settlements), de coordenar um pouco melhor as políticas. Mas assim que a crise refluiu nos EUA e nos outros países avançados, o apetite por coordenação internacional, que já era pequeno, diminuiu rapidamente do lado deles. Ocorre que os principais países avançados não enfrentam os lobbys financeiros, então o progresso feito em termos de regulação foi modesto e insuficiente. Por exemplo, a questão das instituições financeiras consideradas “grandes demais para falir”, na verdade grandes demais para serem administradas, não só continua, como se agravou, pois houve uma série fusões.

"O Brasil não está imune, mas acumulou defesas". Existem questões anteriores à turbulência atual que seguem presentes. O Brasil possui mecanismos de defesa que estão sendo acionados. Tem reservas muito altas, que são um lastro para fazer face à agitação dos mercados. Temos um regime de câmbio flutuante, felizmente, porque a primeira linha de defesa é deixar o câmbio depreciar, e foi o que o Brasil fez.

A alta do dólar tem um lado positivo, o de ajudar a restabelecer a competitividade das exportações e a competitividade da produção nacional diante das importações. Além dos mecanismos clássicos, uma coisa interessante e que irá fazer diferença é que o Brasil, ao contrário de outros emergentes, começou a subir a taxa de juros básica muito antes da turbulência atual. Então a percepção sobre o Brasil, sobre o Banco Central brasileiro, a política econômica brasileira, o governo brasileiro, enfim, se fortalece, já que a economia reage pouco, a taxa de inflação está um pouco alta, mas o Brasil preferiu agir. Já Turquia e África do Sul reagiram com mais vagar. Além dos instrumentos clássicos, o Brasil se vale, desde meados do ano passado, do uso dos derivativos para estabilizar o câmbio. O Brasil não está imune, mas acumulou defesas e está usando.

"Reforma do FMI: perdemos uma grande chance". A reforma de 2010 não era radical, mas era o segundo passo significativo e que não saiu do papel. Tivemos uma reforma em 2008 que redistribuiu votos e cotas para os emergentes. Mas o próprio acordo de 2010 apontava para os passos seguintes, que era a reforma da forma de cálculo das cotas e previa a próxima revisão de cotas. Mas a reforma de 2010 não entrou em vigor e os passos subsequentes não foram sequer iniciados de fato, o que é mais grave.

Mas o que vimos em janeiro foi um divisor de águas. O Congresso norte-americano e a administração Obama perderam uma grande oportunidade, que era inserir a questão da reforma do FMI na omnibus bill, uma oportunidade que os americanos e a administração do FMI sinalizaram para os representantes dos emergentes, ainda que não garantissem sucesso, mas sinalizaram com a expectativa de aprovação. E falhou.

Agora os emergentes têm de avaliar com muito cuidado esse novo cenário porque não se pode simplesmente continuar na mesma toada. Estamos diante de uma situação nova, que exige atitudes. A primeira grande oportunidade para marcar posição será em Sydney. Por isso qualquer especulação neste sentido, inclusive em relação aos 75 bilhões [referência à possibilidade de os BRICs suspenderem recursos prometidos ao FMI, como forma de retaliação à ausência de reformas, conforme disse um funcionário do governo brasileiro em entrevista recente ao Valor Econômico], é prematura, inclusive porque jamais um Bric pode querer falar em nome dos outros.

O Tancredo Neves dizia que em São João del Rey existia um sujeito que tinha matado três, mas nunca ameaçou ninguém. Sou contra essa história de fazer barulho. Se for para tomar alguma providência, o melhor é tomar de uma vez.

"Argentina não dialoga com o FMI". O problema que tenho para comentar a situação argentina é que há vários anos a Argentina não faz a consulta anual rotineira com o FMI. Há muitos anos não temos uma discussão em profundidade sobre a economia argentina na diretoria do fundo. A análise fica prejudicada pela falta de um mecanismo regular de consultas, como faz a grande maioria dos países. E o mesmo acontece com a Venezuela.

O passo que eu gostaria de ver a Argentina dar, em seu próprio interesse, seria substituir o índice de preços de Buenos Aires, o índice oficial atual, por um índice de alcance nacional e com mais precisão e credibilidade. Esse passo é difícil, mas os argentinos planejam dá-lo em 2014. Não irá resolver a turbulência, mas vai no sentido da normalização.