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Economia

Opinião

A desaceleração da China não é tão ruim quanto parece

por Rui Daher publicado 04/09/2015 12h18, última modificação 04/09/2015 15h40
A agropecuária brasileira não quebrará com uma China crescendo menos, tampouco as recentes oscilações do preço das commodities agrícolas devem ser postas nos ombros da demanda chinesa
Aldemar Ribeiro/Secom
Safra

O preço das commodities agrícolas vem caindo devido a uma maior produção nos principais países exportadores. Só e somente

E a China, hein? Lembro-me do período em que o PIB do Império do Meio crescia à base de dois dígitos ao ano, puxando a economia mundial, mais em países emergentes.

Na época, nove entre dez economistas aconselhavam os chineses a diminuírem o ritmo de crescimento. Entre 7 e 7,5% estaria de bom tamanho.

Não conheço o nível de teimosia desse povo ou o bom entendimento do sistema capitalista pelo Partido Comunista Chinês (PCC). Sei que foram obedientes ou se cansaram de dar régua e compasso ao crescimento no planeta.

Hoje em dia, se vê que mandaram aquele abraço para seus conselheiros e, aos poucos, pousaram nos índices sugeridos pelo pensamento econômico ocidental.

Baita fuzuê! Ferrou! Acabou a boa vida para as exportações agropecuárias e de minérios brasileiros. Morreremos à míngua, embora não seja isso o que mostram os resultados atuais da balança comercial.

Nos últimos meses, proliferaram matérias, análises e colunas em folhas e telas cotidianas querendo descobrir cosa sucede com i cinesi.

Mudanças, sim, mas continuam a se alimentar e sem grande possibilidade de expansão agropecuária, o que já é uma dica para a nossa horta.

E a crise? Qual? O raleamento do crescimento aconselhado dez anos atrás? A desvalorização do yuan, moeda antes vista injusta no comércio internacional? Influência nas erráticas bolsas mundiais? Azularam o livro vermelho do Mao? Mudaram a estação do rolinho primavera?

O editor do Financial Times, Martin Wolf, pergunta se haverá descontinuidade progressiva do crescimento, justificada por modelo insustentável, carga de endividamento e riscos de colapso da demanda. Acha provável sem confessar certeza, e logo corre ao que interessa o Ocidente: “uma economia pautada pelo mercado é compatível com a crescente concentração do poder político”?

Outros creem “num processo de correção saudável e não o começo de uma crise mais grave”.

O professor Luiz Gonzaga Belluzzo, em coluna para o Valor Econômico (01/09/2015), cita entrevista dada à Folha de São Paulo (30/08) pelo economista Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim, que diz: “a desaceleração da economia chinesa tem a ver tanto com a China, quanto com a economia mundial”.

Estudioso de emergências econômicas, Pettis mostra a China repetindo os “milagres econômicos da URSS nos anos 1950, Brasil nos anos 1960 e 1970, e Japão nos 1980”. Brinca: “é como alguém assistir ao mesmo filme pela 12ª vez, e esperar um final diferente”.

Como aconteceu com tantos outros países, a China passa por um período de transição com muitos vieses, daí o título que Belluzzo deu a seu artigo: “O enigma da China”.

Para a nossa horta, no entanto, prevejo mudança nenhuma. As recentes oscilações com as commodities agrícolas não devem ser postas nos ombros da demanda chinesa.

As cotações vêm caindo por fator concreto confirmado pela safra dos EUA: excesso de oferta por produção maior nos principais países exportadores. Só e somente.

Com a lupa

Em Andanças Capitais pode-se encontrar abóboras gigantes e tomates sem agrotóxicos em processos não muito sofisticados e soluções para lá de lucrativas.

Leio matéria da 4ª edição da revista Chácara Paraíso sobre a propriedade do senhor Chico Neto, na BR-163, km 183, Santa Tereza do Oeste (PR). Lá se planta mais de cem variedades de frutas, hortaliças e legumes. O Globo Rural reportou em 27/07/2014, na TV.

Suas abóboras são um must e não sei por que ainda não foram capa da revista Veja. Parecem mentira.

Imaginem o teor de vitaminas A e B, licopeno e sais minerais em uma abóbora com 3,15 metros de circunferência e mais de 200 quilos de peso.

Cinderela topasse, teria uma carruagem papa-filas. Preferisse, oferecia no baile do príncipe abundantes bolachas, purês, curaus e barrigadas. Boiaram na última? Eu também.

O causo do tomate é auspicioso. Com fama de vilão inflacionário e transmissor de venenos, tenta amenizar a imagem fazendo-se orgânico.

Em 2013, segundo o IBGE, produziu-se 4,2 milhões de tomates, em mais de 50 variedades, usando área de 63 mil hectares.

Já visitei assentamentos e sítios que plantam “tomates ecologicamente cultivados”, o Tomatec®, programa desenvolvido pela Embrapa. Dá excelentes resultados em nossas saladas e molhos, além de exageradas pisadas aos maus políticos.

Tomateiros são suscetíveis a viverem doentinhos. Daí que seus padrastos usam remédios para curá-los que deixam doentes quem os consome.

Tradicionalmente, plantam morro abaixo, facilitando erosão e perda de água. Usam corretivos, adubos químicos e agrotóxicos na veia dos nenês, e criam largos furos nos bolsos dos tutores.

Como a agricultura familiar humildemente costuma escutar quem sabe mais, a Embrapa ensinou-lhe a conservar solo, água e produto, com plantio direto, verticalização das plantas com fitilhos, manejo integrado de pragas, adubação por gotejamento e proteção das pencas contra insetos com sacos de papel. Como se vê em pêssegos.

Um técnico me relatou produtividade 30% maior, custo 15% menor, e melhor qualidade. Fui verificar. Não temeria colocar na capa desta CartaCapital. Aí como verdade.