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Economia

Entrevista

A crise está lá fora

por Sergio Lirio publicado 27/10/2011 08h54, última modificação 06/06/2015 18h15
Eleito o executivo de petróleo do ano, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, mantém a meta de investimentos
A crise está lá fora

Eleito o executivo de petróleo do ano, o presidente da Petrobras mantém a meta de investimentos. Foto: Gustavo Lourencao

É curiosa a situação de José Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras. Pela leitura das seções econômicas da mídia brasileira, ele viveria um inferno diário. Dilma Rousseff gostaria de vê-lo pelas costas e o conselho de administração da petroleira desejaria enterrá-lo sob a camada do pré-sal de forma a apagar qualquer vestígio de sua existência. Estranhamente, esse administrador tão odiado, segundo a mídia, que assumiu o cargo máximo da empresa em 2005 depois de exercer o posto de diretor-financeiro, está a menos de um mês de se tornar o mais longevo comandante da estatal. Não bastasse, Gabrielli acaba de receber um dos mais importantes prêmios do setor: foi eleito o executivo de petróleo do ano pela Energy Intelligence, após a indicação dos líderes das cem maiores companhias do segmento. “Esse prêmio representa o resultado de um longo e aplicado trabalho que vem sendo feito de forma bem-sucedida por grande número de competentes, aplicados e corajosos trabalhadores”, discursou durante a cerimônia de premiação em Londres, na noite da segunda-feira 10. Entre incontáveis viagens de negócios, Gabrielli abriu uma brecha na agenda para conceder a entrevista que se segue, realizada antes da votação da distribuição dos royalties do pré-sal pelo Congresso na quarta-feira 19.

CartaCapital:O senhor está prestes a se tornar o presidente mais longevo da Petrobras. A que o senhor atribui essa permanência?

José Sergio Gabrielli: Exercer a presidência dessa empresa é uma grande responsabilidade, não apenas pela sua dimensão empresarial, mas principalmente pela sua importância como fornecedora ininterrupta de combustíveis para o desenvolvimento do País e maior responsável pelo nosso crescimento industrial. Mas administrá-la torna-se tarefa mais fácil quando se tem um quadro de gerentes e empregados com a competência e dedicação que encontramos aqui. Portanto, só posso creditar o êxito da Petrobras nesses quase nove anos em que estou aqui, primeiro como diretor-financeiro e depois como presidente, à colaboração de toda a nossa força de trabalho.

CC: O senhor é alvo constante de críticas. Já o derrubaram várias vezes, já disseram que a presidenta Dilma Rousseff não gosta do senhor. Como isso afeta o seu trabalho?

JSG: Não vejo como críticas e sim como especulações, em torno de nossas atividades nos últimos anos, que são públicas. E discordo da afirmação de que a presidenta não gosta de mim. Tenho excelente relação com a presidenta Dilma, que foi presidenta do nosso Conselho de Administração e conhece muito bem a Petrobras. É claro que, enquanto presidente do conselho, divergimos em algumas ocasiões, o que é normal e saudável em uma administração colegiada, como a da Petrobras, mas isso jamais interferiu em nossa relação ou na condução dos negócios da companhia.

CC: O cenário internacional mudou bastante, para pior. Como essa mudança vai afetar o plano de investimentos da companhia?

JSG: A crise está na Europa e nos Estados Unidos, e nosso principal mercado é o interno. Não tivemos nenhuma redução da demanda dos produtos que produzimos e vendemos. Pelo contrário, estamos assistindo a um aumento do consumo dos principais derivados. Por isso, não planejamos reduzir os investimentos programados para 2011 a 2015, de 224,7 bilhões de dólares no período, mesmo com a perspectiva de que as economias avançadas cresçam a um ritmo mais fraco, nos próximos anos.

CC: O senhor acredita que a indústria nacional dará conta, mantidos os porcentuais de participação nativa, de suprir as demandas do pré-sal? A Petrobras tem monitorado essa capacidade?

JSG: Não somente monitoramos como incentivamos a participação da nossa indústria e a criação de parcerias entre capital nacional e empresas mundiais detentoras de tecnologia, visando aumentar a capacitação produtiva da cadeia fornecedora para o setor de petróleo e gás. Temos alguns gargalos, mas estamos conseguindo equacioná-los e não temos dúvidas de que nossa indústria poderá atender às demandas do pré-sal, como já vem atendendo às do pós-sal, para onde estão direcionados os maiores volumes de investimento de nosso plano de negócios até 2015.

CC: O impasse na discussão dos royalties prejudica, de alguma forma, a exploração do pré-sal?

JSG: A exploração, bem como o desenvolvimento da produção dos reservatórios que descobrimos no pré-sal, está sendo conduzida independentemente de definições sobre participações governamentais. Esta é uma questão que somente pode ser definida por decreto e, mesmo assim, para as licitações futuras, uma vez que os contratos em vigor foram firmados de acordo com a legislação vigente naquele momento. Assim, os contratos de concessão, já assinados entre a ANP e as empresas concessionárias para uma determinada área, definem explicitamente as condições de pagamento das participações governamentais. Qualquer alteração por decreto será quebra de contrato e, certamente, ensejará demanda judicial.

CC: Como estão as negociações com a PDVSA sobre a participação da empresa venezuelana na refinaria Abreu e Lima?

JSG: Estamos construindo a refinaria, independentemente da participação da PDVSA. Neste momento, a PDVSA está negociando garantias de um empréstimo com o BNDES, e o prazo para a conclusão dessas negociações vai até 30 de novembro próximo.

CC: O Brasil domina uma das melhores tecnologias de biocombustíveis, tem área plantável, insumos diversos. Mas novamente vive um problema de preço e, em certa medida, de escassez de produto. O que falta para dar estabilidade de longo prazo a esse mercado?

JSG: Estamos passando por um momento transitório no segmento de biocombustíveis. Estão em curso investimentos que deverão contribuir para a estabilização do fornecimento. De nossa parte estamos investindo para nos tornarmos a maior produtora de etanol do País até 2015. Após ingressar nesse segmento, via aquisição de ativos e de parcerias, a companhia planeja alcançar uma produção total de 5,6 bilhões de litros de etanol em 2015, incluindo a participação de parceiros. O volume permitiria à Petrobras participação de 12% do mercado brasileiro de etanol. Estamos prevendo investimentos de 4,1 bilhões de dólares no segmento de biocombustíveis entre 2011 e 2015, dos quais 1,9 bilhão de dólares no negócio e 1,3 bilhão na logística de distribuição.

CC: O Brasil não corre risco de ficar para trás na corrida pelas tecnologias mais eficientes de biocombustível?

JSG: Ao contrário. Somos o único país do mundo que tem tecnologia consolidada em biocombustíveis, principalmente etanol, cujos motores foram desenvolvidos na década de 1970 e aperfeiçoados ao longo do tempo. E hoje somos também pioneiros nos motores flex. Também estamos em paralelo com o mundo nas pesquisas para desenvolvimento do etanol de segunda geração, a partir de celulose, principalmente utilizando como matéria-prima o grande volume de bagaço de cana disponível no País. •