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A crise como ela é

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 10/09/2011 16h13, última modificação 11/09/2011 15h31
Os bancos centrais abandonam suas responsabilidades nas questões do investimento, crescimento e do emprego

No crepúsculo dos anos 90, auge do prestígio dos bancos centrais independentes, o senador Phil Gramm, um dos corifeus da desregulamentação financeira, assumiu a presidência da Comissão de Bancos do Senado dos Estados Unidos. Semanas depois de sua posse, o senador Gramm, numa entrevista coletiva, anunciou que pretendia encerrar o sistema de audiências regulares dos presidentes do Federal Reserve nas comissões do Congresso sobre a condução da política monetária.

Essas audiências foram criadas em 1975 e transformadas em lei em 1978, mediante o Humphrey-Hawkins Act.  Essa lei estabelecia os objetivos gerais da política econômica: “O pleno emprego, o crescimento equilibrado e a razoável estabilidade de preços”.

Mais importante é, porém, o ponto levantado por James Galbraith, filho de John Kenneth, em relação à natureza e aos limites da independência do banco central americano. “O Federal Reserve”, diz ele, “é uma criatura do Congresso. Ele está sujeito às leis dos Estados Unidos, incluindo aquelas que estabelecem os objetivos da política econômica. O Fed é uma agência independente, mas nos termos da autonomia estabelecida pelo Congresso. E o Congresso detém o poder, em última instância, de acordo com a Constituição para instruir o Fed, seja por lei, seja mediante resolução”.

Galbraith lamenta que, encorajados por figuras antidemocráticas que se reproduzem entre os economistas, os bancos centrais tenham concentrado sua atenção exclusivamente na questão da estabilidade de preços, abandonando quase que por completo suas responsabilidades nas questões relativas ao investimento, ao crescimento e ao emprego. “Essa atitude priva os governos nacionais dos meios necessários para promover outros objetivos.”

Muita gente sabe, mas alguns esquecem: as políticas monetárias da era liberal (entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX), aquelas que prevaleceram sob o padrão-ouro, tinham como único objetivo garantir o valor externo da moeda. O funcionamento desse regime monetário era compreendido, até mesmo pelos partidos trabalhistas e socialistas, como uma forma “natural” de governança dos mercados autorregulados, imune aos azares e reviravoltas da política. Mas, na verdade, o padrão-ouro era, sim, uma instituição política que exprimia a correlação de forças sociais prevalecente nessa etapa do capitalismo. Sua “reputação” dependia fundamentalmente da hegemonia das classes proprietárias e dominantes, que “confiavam” na ação protetora dos governos, então desobrigadas de cuidar do emprego e dos salários das classes subalternas.

Os anos 20 e 30 do século passado foram sacudidos pela presença cada vez mais incômoda das massas assalariadas e de seus interesses na esfera política. Karl Polaniy chamou esse momento de A Grande Transformação, título de sua obra maior. As políticas econômicas e sociais executadas na posteridade da Segunda Gerra Mundial buscaram equilibrar os impulsos da acumulação privada da riqueza e as aspirações dos homens comuns, a gente que batalha por uma vida digna e sem sobressaltos. Antes considerados criaturas da vagabundagem e da preguiça, o desemprego e a pobreza reconfiguraram seu conceito na consciência social: passaram a ser interpretados como distúrbios e injustiças nascidos das disfunções do mecanismo econômico. A arquitetura capitalista do pós-guerra permitiu durante um bom tempo a convivência entre estabilidade monetária, crescimento rápido e ampliação do consumo dos assalariados e dos direitos sociais.

O sonho durou 30 anos e, no clima sombrio da Guerra Fria, as classes trabalhadoras do Ocidente desenvolvido gozaram de uma prosperidade sem precedentes. Mesmo depois da derrocada de 2008, são cada vez mais frequentes as arengas dos economistas contra os “desvios da política”. Os porta-vozes da razão econômica e de seus poderes pretendem enquadrar, de novo, a sociedade na camisa de força do seu movimento autorreferencial. Sintoma de que as forças que controlam a economia contemporânea não estão dispostas a admitir contestações às suas pretensões de domínio e de submissão dos homens ao império da expansão desregrada.

Hoje, depois de décadas de predomínio do ideário mercadista, o  cidadão atropelado pelas  erráticas e aparentemente inexplicáveis convulsões da economia não acredita no controle de seu próprio destino. As medidas de combate às crises, por exemplo, são capazes de destruir suas condições de vida, mas o consenso dominante trata de explicar que, se não for assim, a situação pode piorar ainda mais. A formação desse consenso é, em si mesmo, um método eficaz de bloquear o imaginário social e promover a paralisia política, numa comprovação dolorosa de que as formas objetivadas da economia adquirem dinâmica própria e passam a constranger a liberdade de homens e mulheres.