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Economia

A atividade rural não pode virar um Fla-Flu

por Rui Daher publicado 03/04/2015 13h26, última modificação 17/06/2015 17h09
Não há qualquer motivo para colocar em oposição ou em alternativas mutuamente exclusivas agronegócio, agricultura familiar e assentamentos rurais. Quem o faz atrasa a economia do País
Aldemar Ribeiro/Secom
Os agricultores familiares representam 40% dos produtores de abacaxi do Tocantins

Os agricultores familiares representam 40% dos produtores de abacaxi do Tocantins

O “Facebook Caboclo”, aqui instituído na semana passada, ganhou corpo com fartas e boas argumentações postadas. Deixa, no entanto, um alerta: a atividade rural não deve ser polarizada na forma do Fla-Flu que levou a política nacional ao nível de fossas, nem mesmo assépticas.

Precisamos entendê-la rapidamente, caso contrário, poderemos matar social, antropológica e economicamente, ainda quando pintinho, nossa galinha dos ovos de ouro.

Primeiro como agropecuária, depois como agronegócio, os atores do teatro camponês trabalham em uma infinidade de palcos que se complementam e fazem da polêmica, quando socialmente segmentada, uma grande bobagem.

Não resisto, pois, a um leve enxovalho: não há qualquer motivo para colocar em oposição ou em alternativas mutuamente exclusivas, agronegócio, agricultura familiar e assentamentos rurais. Quem o faz, seja por ideologia datada há mais de cinco décadas, seja por resguardo de interesses pessoais ou corporativos contados em séculos, atrasa o desenvolvimento agrário e a economia do País.

Na agropecuária, mulheres e homens trabalham a partir de três instâncias básicas e imbricadas: natureza, tecnologia e Estado. O último é fundamental como moderador das contradições do sistema econômico vigente. Nesta Federação de Corporações, aquelas que vicejam no capitalismo, sobretudo quando nele predominam interesses e dinheiros públicos, privados e escusos.

Para entendimento dessas lidas, que sempre irão juntar capital e trabalho, devemos partir da cultura plantada ou do rebanho criado. Somente essa heterogeneidade trará ilações econômicas capazes de agregar desenvolvimento social.

Lembremos: milho não é jenipapo; muares não devem ser tratados da mesma forma que se faz carcinicultura; e, apesar de ambas gramíneas, cana-de-açúcar e pastagens sempre cairão distintas nas garras boas e más do agronegócio. Confundir isso e tudo o mais nos tornará um rebanho de asininos

Mal dirigidos em qualquer de suas formas básicas, as interpretações dos atores do teatro agro correrão risco de vaias antes mesmo do fechar de cortinas.

Há lugar, sim, para produção em grandes e médias extensões de terras, pequenas propriedades com características de agricultura familiar, e assentamentos bem planejados de colonos.

Cada um na sua, na deles, na de todos nós. Cultura e também cultura, se me entendem: soja, pimentão e melancia; milonga, catira e cordel.

E antes que acusem estas Andanças Capitais como poéticas, otimistas ou vazias, desejo ao atento leitorado uma boa Páscoa, precedida por sugestão de quebra-cabeças para a Aleluia:

  1. Segundo a ANFAVEA, o segmento de agricultura familiar foi o que mais demandou novos tratores, em 2014;

  2. Partindo disso, as principais fabricantes multinacionais, no Brasil, estão produzindo tratores médios equipados com GPS, piloto automático e equipamentos de alta tecnologia;

  3. Estatísticas do Departamento de Agricultura dos EUA apontam que 97% dos 2,1 milhões de propriedades rurais são familiares;

  4. Entre 2002 e 2013, enquanto o IGP-DI (FGV) cresceu 121,9%, o preço médio das terras agrícolas subiu 308% (Ministério da Agricultura);

Nos assentamentos brasileiros, sem ou com terra, vivem milhares de famílias. Bom divertimento!

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O prédio da residência estudantil da ESALQ

Você conhece o CEU agronômico?

Em 2002, desempregado e já tendo aberto pequena empresa para consultorias, logo no primeiro trabalho contratei um engenheiro-agrônomo recém-formado.

Fui conhecê-lo na Casa do Estudante Universitário (CEU), na ESALQ, de Piracicaba, onde ele morava.

Não diferenciava muito do prédio do CRUSP, na Cidade Universitária da capital paulista, muito visitado em minha época de Ciências Sociais.

Como é comum, zonas de pós-guerras propiciadas pelo “jeito estudantil de ser” e “o do governo de não fazer”.

Por 13 anos, enfim, continuei amiúde passando pela frente daquelas ruínas, esperando ver melhorias. Fundada em 1962, a Casa nunca recebeu reforma para valer. A manutenção, sempre foi mínima. Finalmente, em junho do ano passado, obteve autorização, verba de R$ 2,3 milhões, e conclusão prevista em 330 dias corridos.

Fiz andança por lá nesta semana. À exceção de três operários trabalhando na parte térrea, o estado deplorável do prédio continuava intacto.