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Opinião

2050 ou um ponto logo ali, adiante

por Leonardo Guerra — publicado 26/10/2013 09h36
De olho na China, o Brasil precisa se preparar para o acirramento da competição entre as economias nacionais mais industrializadas
Mark Ralston / AFP
Prédios na China

Condomínios novos em Pequim: o crescimento da China pode beneficiar o Brasil

Nas instituições multilaterais, e também em alguns países, fazer previsões econômicas de longo prazo é uma prática. Aqui no Brasil, a ausência de interesse nesse tipo de projeção é uma característica; outra, é que pouco refletimos sobre qual é a visão, para o futuro, que essas instituições têm de nós. No contato com alguns dos documentos disponíveis, salta aos olhos a necessidade de entendermos melhor o que condiciona nosso futuro.

No World Agriculture Towards 2030/2050: The 2012 revision (em inglês, em PDF), a FAO estima que, em 2050, o mundo terá universalizado um padrão de consumo alimentar hoje existente apenas nos países já desenvolvidos (3 mil calorias diárias per capita). Em escala mundial, isso vai propiciar uma drástica redução da desnutrição infantil.

Entretanto, para que essa projeção se confirme, em 2050 o mundo terá de produzir 50% mais toneladas de alimentos do que produz atualmente. Nessa previsão de safra global está embutida a certeza de que o Brasil continuará expandindo sua base exportadora de alimentos. O que representará, mesmo num cenário de preços de commodities estáveis, exportações mais altas.

No mesmo sentido, vemos no World Trade Report 2013: Factors shaping the future of world trade (em inglês), da OMC, um implícito cenário de expansão sustentada de nossa economia. Segundo estas projeções, mesmo num cenário pessimista o PIB mundial deverá crescer 2% ao ano, até 2035; e 4% ao ano num cenário otimista. Neste caso, as exportações mundiais deverão crescer, no cenário mais pessimista, 1% ao ano; e, no cenário mais otimista, 7% ao ano.

Para a OMC, o Brasil chegará em 2035, em qualquer cenário, com um mesmo share mundial: no PIB (2%); no total das exportações (1%); e nas exportações de manufaturados (1%). Nosso crescimento, segundo a OMC, seguirá a mesma dinâmica do mundo.

Porém, quando analisamos as previsões contidas em China 2030 (em inglês, em PDF), um documento do Banco Mundial e do Centro de Pesquisa do Desenvolvimento do Conselho de Estado Chinês, delineamos uma perspectiva melhor. Nesse documento, há uma clara visão de como, nos próximos a 17 anos, a China pretende tornar-se uma sociedade moderna, criativa e de alta renda. Essa construção, tal como ocorreu nos anos recentes, vai gerar uma forte aceleração do setor exportador brasileiro.

Recentemente, a China tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil e, para se tornar o país terciário e urbano de sua previsão, terá que comprar ainda mais nossas commodities (minério de ferro, petróleo, soja e carne). Com isso, nossa forte relação comercial tende a evoluir para grandes acordos de investimentos, seja nas concessões ferroviárias ou na exploração do pré-sal, por exemplo.

Nesse aspecto, é oportuno lembrar que o Brasil, em virtude da descoberta de uma fonte de riqueza off shore, já tem uma das maiores carteiras de encomendas navais do mundo. E também possui um robusto projeto de concessões ferroviárias (10 mil km); rodoviárias (5 mil km); de aeroportos e portos.

Assim, o fato da China crescer numa velocidade maior que o mundo nos permitirá um aumento da produção nacional, para exportação, de minério de ferro, alimentos, óleo e gás. Isso pode, por si, sustentar um longo período de saldo comercial positivo. E com isto, maior segurança cambial.

Essa perspectiva é ainda mais promissora quando analisamos outro componente das transações correntes do país: a conta de capital. Podemos projetar que o fluxo de investimento estrangeiro direto será também positivo, e alto. Isto está escrito nos contratos de concessão e nas entrevistas dos principais CEO mundiais.

Grandes concessões, vultosos planos de investimento de grandes empresas transnacionais e a expansão do mercado nos permitem consolidar uma visão de futuro melhor do que aquele que está desenhado no relatório da OMC.

Se o cenário cambial, por conta do aumento da atividade exportadora e do aporte de investimento produtivo é bom, tal como sugere esta reflexão, a questão passa a ser como nossa economia, especialmente o setor industrial, vai incorporar os avanços tecnológicos do Século 21.

Nesse sentido, vale refletir sobre como algumas nações já estão se preparando para novas mudanças. O Reino Unido, com toda a sua tradição liberal, elaborou, em seu Government Office Science (em inglês, em PDF), um estudo para mostrar às suas empresas como acumular vantagens nas transformações tecnológicas em curso e em outras que estão por vir. A ideia é construir, a partir das reconhecidas bases científicas e industriais do país, vantagens competitivas comerciais.

Esse estudo aponta que em 2020 o mercado mundial de nanomateriais será de 100 bilhões de dólares; até lá, apenas a rede de smart-grid da União Europeia vai gerar dispêndios de outros 200 bilhões de dólares. Daqui a sete anos, segundo os britânicos, a biotecnologia industrial e os plastic eletronics serão produtos de novos e bilionários mercados.

No governo australiano há um exemplo similar de visão de futuro. Um dos pontos fortes do Trends in Manufacturing 2020 (em inglês, em PDF) é a expectativa de manter um milhão de empregos na indústria de transformação numa situação de pleno emprego e com a consolidação de um sistema de produção global, baseadas em impressões 3D de última geração e com uso intensivo da robótica para a integração de manufaturas ainda inexistente.

No que tange à robótica, a Coréia do Sul nos informa que tornou o tema assunto de Estado. Seu Ministério do Conhecimento coordena um programa de Pesquisa e Desenvolvimento que objetiva posicionar sua indústria nacional Top 3 no ranking mundial. Eles nos antecipam que este setor deverá ter vendas de 220 bilhões de dólares em 2020.

Se para a FAO e para a OMC o mundo globalizado, no médio prazo, vai superar mazelas e promover um maior intercâmbio de mercadorias e serviços, as estratégias nacionais aqui apresentadas seguem no sentido de transformar essas perspectivas em oportunidades e, com isso, consolidar empregos de maior valor agregado.

Isso também está presente no A National Strategic Plan for Advanced Manufacturing (em inglês, em PDF), elaborado pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia do Gabinete do Presidente dos Estados Unidos. Este plano objetiva reverter o atual déficit comercial (100 bilhões de dólares) de manufaturas de alta tecnologia daquele país, fortalecendo a classe média e a América.

O governo americano, em 2013, lançou um pacote bilionário de incentivos públicos para reforçar investimentos em robótica, nanotecnologia e biotecnologia. Não é sem razão que uma das maiores empresas do mundo hoje anuncia, na web, que seu futuro computador de ponta será desenhado e montado nos Estados Unidos, talvez pela primeira vez.

Nestes planos nacionais de crescimento, além da firme orquestração nacional, pública e privada, há uma visão global que sustenta estratégias setoriais focadas em oportunidades reconhecidamente relevantes. A leitura destes documentos, além de inspiração, sugere que temos de nos preparar para o acirramento da competição entre as economias nacionais mais industrializadas.

*Leonardo Guerra é chefe da Assessoria Econômica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.