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UPPs: seis anos depois, falta de diálogo é problema a ser superado

por Tatiana Galdino — publicado 18/11/2014 12h53
Casos como o de Amarildo e o aumento dos índices de criminalidade colocam em xeque efetividade do programa, ponderam especialistas reunidos por CartaCapital
CartaCapital
Vera Malaguti Batista, Mauricio Dias e Jorge da Silva

Vera Malaguti Batista, Mauricio Dias e Jorge da Silva

Seis anos após o começo da implantação, com 38 unidades e efetivo de 9,5 mil policiais militares nas áreas ocupadas, o programa de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), principal política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro, ainda enfrenta problemas e precisa de ajustes. A tensão entre polícia e comunidade, relação historicamente marcada por conflitos, e os constantes casos de violência policial estão entre as críticas às UPPs.

Para discutir os erros do modelo e os principais caminhos para combater a violência nas metrópoles, CartaCapital promoveu uma edição de Diálogos Capitais nas Livrarias na noite de segunda-feira 17 na Livraria Cultura do centro do Rio de Janeiro. O evento contou com a participação de Vera Malaguti Batista, escritora e secretária-geral do Instituto Carioca de Criminologia, e de Jorge da Silva, professor-adjunto aposentado da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ex-chefe do Estado Maior Geral da PM do Rio e ex-secretário de Direitos Humanos do estado.

Casos como o do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido em 2013 após ser levado à base da UPP da Rocinha, na zona sul do Rio, o indiciamento de policiais da UPP suspeitos de participar do estupro de três jovens na comunidade do Jacarezinho, na zona norte, o aumento dos índices de criminalidade em áreas pacificadas e as frequentes mortes e confusões entre moradores e PMs vêm colocando à prova a efetividade do programa.

“Segurança não é infestar um local com policiais, armamento e câmeras. As pessoas estão sendo levadas a acreditar que, se você colocar mil policiais na Rocinha, estará seguro. Estamos vendo que não é exatamente assim. Além disso, há um discurso que dizia que as UPPs iriam produzir um policiamento comunitário. Elas não têm nada de policiamento comunitário. Quando se pensa em um projeto de segurança para um lugar, os moradores devem ser os protagonistas”, avaliou Vera Malaguti.

Apesar de considerar a UPP um passo importante no combate à violência, a socióloga afirma que, ao importar esse modelo de segurança pública – a pacificação colombiana inspirou o projeto nas comunidades do Rionão houve um planejamento que levasse em consideração as características e a história do Rio de Janeiro.

“Não se pensou o Rio de Janeiro para que fosse produzido um modelo de segurança pública que tivesse a ver com a sua história, com seu povo, com suas favelas e bairros. Nós recebemos um modelo de ocupação de território bélico já derrotado”, completou Vera Malaguti.

Segundo professor Jorge da Silva, o mapa das UPPs privilegiou áreas com os maiores IPTUs e que fazem parte da rota turística, gerando um aumento exponencial nos índices de violência nas áreas periféricas e no interior do Rio.

“Segundo um levantamento do IBGE de uns dois anos atrás, o município de São Gonçalo possui 1 milhão e 100 mil habitantes e o batalhão, durante algum tempo, perdeu efetivo para a capital, chegando a ter 650 policiais militares. Já na Rocinha, na zona sul do Rio, há mais de 700 policiais para um contingente de 71 mil moradores. Eles ainda contam com o policiamento do batalhão do Leblon e da UPP. Como pode ter uma política justa de combate à violência com esse cenário? Essa questão realmente é um impasse.”

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