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Diálogos Capitais

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"Falta ´ciência nacional´ para indústria farmacêutica crescer"

por Dimalice Nunes — publicado 30/11/2015 18h16, última modificação 30/11/2015 18h20
Antonio Britto (Interfarma) debateu o mercado de fármacos com Pedro Lins Palmeira Filho (BNDES) e Ogarí Pacheco, do laboratório Cristália
Fotos: Marcelo Pereira
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Antonio Britto participou do evento de Saúde promovido por CartaCapital

O presidente da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa - Interfarma, Antônio Brito, afirmou hoje que a falta do que ele chamou de "ciência nacional" impede o desenvolvimento da indústria nacional de fármacos. Segundo ele, há um problema concreto, já que a universidade é avessa à pesquisa aplicada, focando-se exclusivamente na pesquisa de base.

"A universidade não tem coragem de atravessar a rua e se associar à industria", criticou. Brito participou nesta segunda-feira, 30, do seminário Diálogos Capitais: Saúde, os desafios da saúde no Brasil do século XXI, promovido por CartaCapital.

Por outro lado, afirma o executivo, a indústria "detesta risco". Para ele, se existe um mercado consumidor forte e apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a fabricação de medicamentos, não há porque investir, e se arriscar, em inovação no segmento de fármacos, a matéria-prima, os princípios ativos para a fabricação de medicamentos.

"Com isso, o Brasil segue pagando o caro e vendendo o barato", disse se referindo à compra de novos medicamentos desenvolvidos pela indústria estrangeira e aos já considerados commodities fabricados internamente. "O Brasil não pode só produzir pappers, tem que produzir patentes para poder tirar do SUS a carga de pagar caro para comprar o novo."

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Pedro Lins Palmeira Filho, do BNDES
O chefe para o departamento de químicos do BNDES, Pedro Lins Palmeira Filho, também presente no debate, prefere enxergar os avanços obtidos pelo setor, especialmente na última década, e acredita que inovação é um conceito evolutivo. "Nenhum país acorda inovando. É um processo. O BNDES faz o balcão, emprestando dinheiro, mas também temos o papel de pensar e induzir o desenvolvimento."

Palmeira Filho concorda, no entanto, que a universidade seja o elo mais fraco neste processo e defende uma aproximação pragmática entre pesquisadores e indústria. Este avanço é fundamental para que a indústria brasileira possa suprir de forma eficiente a demanda crescente por medicamentos para doenças crônicas, por exemplo, que aumentam com o envelhecimento da população.

Quando se fala em inovação, Palmeira Filhos lembra que dos dez medicamentos mais vendidos no mundo, sete são biotecnológicos. Desenvolver a indústria nacional neste segmento é um dos objetivos. "Para ampliar o acesso é necessário uma indústria brasileira forte e essa é nossa esperança no médio e longo prazo num sistema universal", afirmou.

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Ogarí Pacheco, presidente do laboratório Cristália
Ogarí Pacheco, presidente do laboratório Cristália, um dos poucos com 100% de capital nacional e que investe em inovação e desenvolvimento de novos fármacos, é enfático em dizer que quem investir apenas em commodities "vai dançar". Segundo ele, o Brasil precisa superar o déficit de desenvolvimento em relação aos demais países, já que patentes quebradas agora começaram a ser desenvolvidas há pelo menos 30 anos.

Dentro deste contexto, Brito lembra que é importante comemorar os avanços do Brasil, mas não se pode esquecer que o País não compete com si mesmo, mas sim num mercado global. E um dos fatores que fazem o País caminhar mais devagar que a concorrência é a burocracia.

Quando se fala especificamente em registro de patentes de fármacos e medicamentos o cenário é desanimador. Segundo Brito, o Instituto Nacional Propriedade Industrial (INPI) conta atualmente com 174 examinadores para 192 mil processos, o que gera uma demora de quase 15 anos. Nos Estados Unidos, uma patente é registrada em cerca de três anos.