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Economia

Diretor da Petrobras admite erro estratégico durante a crise

por Wanderley Preite Sobrinho — publicado 22/05/2015 14h07, última modificação 22/05/2015 15h49
Hugo Repsold Junior diz que estatal não reconheceu retração internacional e manteve gastos acima da média
Greg Salibian
Hugo Repsold Júnior

Hugo Repsold Júnior: para ele, investidor têm razão de estar descontente

Os anos da Petrobras no governo Luiz Inácio Lula da Silva foram de otimismo: aumento de produção e do volume de vendas. Operações e produtividade cada vez maiores. “Mas aí teve um atropelo.” Quem admite é Hugo Repsold Junior, diretor de Gás e Energia da estatal, que nesta sexta-feira 22 participou da “3ª edição do Fórum Brasil”, promovido por CartaCapital em São Paulo.

Junior teve a missão de falar sobre “A Petrobras Diante dos Novos Desafios Internos e Externos”. Ele iniciou sua palestra lembrando a trajetória da estatal desde sua criação, na década de 1950 – de uma empresa sem reservas a uma gigante entusiasmada com a descoberta do pré-sal.

“O mundo crescendo, o Brasil crescendo...Havia tudo para acelerar o investimento e buscar uma produção rápida, geração de receita”, lembra o executivo, há 30 anos na estatal. “Ao contrário das rivais, a Petrobras tinha reservas. Enquanto muitas empresas estavam fazendo fusões, a Petrobras crescia organicamente. E aí teve um atropelo.”

Nessa época de bonança, contou ele, a estatal acelerou os investimentos em refinação e venda de derivados. “Mas aí o mundo começou a mudar num momento em que a empresa estava acelerada demais. Havia potencial, mas começou-se a investir mais do que havia em caixa.”

Em 2008, recordou Junior, a crise parecia conjuntural. Por isso, a empresa contou que sua saúde e perspectivas seriam suficientes para fazer os investidores continuarem emprestando dinheiro para a estatal manter os níveis de investimento dos anos anteriores.

A partir de 2012, no entanto, o preço do petróleo caiu para 50 dólares, mas o investimento estatal se manteve 50% acima da geração de caixa. “Hoje é preciso cinco anos para conseguir pagar a dívida. O mercado começou a reclamar do endividamento”, hoje de 350 bilhões de reais bruto e 280 bilhões de reais líquido. “É muita dívida em um cenário de petróleo a baixo custo.”

O executivo afirmou que as circunstâncias irritaram o investidor. “Os nossos acionistas têm razão para não estarem contentes. Porque temos os elementos. Aumentou a produção, o volume de vendas. Não há problema operacional ou técnico. A produtividade é cada vez maior.”

Em razão desses indicadores, ele acredita que “a situação seja conjuntural”. Junior enumerou “os vários prêmios de tecnologia” recebidos pela estatal nos últimos anos, lembrou que atualmente há 306 campos em produção e 90% de sucesso exploratório.

Agora, a receita é a mesma adotada pelo governo federal: “Vamos fazer o dever de casa” para buscar liquidez. Uma das estratégias será “substituir os atuais ativos por outros que tragam mais caixa”. Até lá, haverá investimento mais baixo, na ordem de 25 bilhões de dólares este ano, 37% menos que os 39,5 bilhões de dólares previstos para 2016. “É conjuntural”, afirmou, otimista: “Prevemos crescimento de 2% na produção este ano.”