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Fórum Brasil

Depois do ajuste, a igualdade de oportunidades?

por Marcelo Pellegrini — publicado 22/05/2015 13h31, última modificação 12/06/2015 16h02
No Fórum Brasil, Nelson Barbosa, Delfim Netto e o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, debatem fortalecimento do Estado de bem-estar social
Greg Salibian
Nelson Barbosa, Octavio de Barros e Delfim Netto

Nelson Barbosa, Octavio de Barros e Delfim Netto no Fórum Brasil: Brasil deve fortalecer Estado de bem-estar

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, defendeu nesta sexta-feira 22 o ajuste fiscal promovido pelo governo Dilma Rousseff como passo inicial para a construção de um novo momento em que o País proporcione as mesmas chances de crescimento pessoal e profissional a seus cidadãos. "Já avançamos muito no combate à pobreza e agora vamos ao debate da igualdade de oportunidade”, disse Barbosa durante a 3ª edição do Fórum Brasil, realizado por CartaCapital, com o tema "Crescer ou crescer".

“O ajuste fiscal tem de ser responsável do ponto de vista financeiro e também do ponto de vista social", afirmou Barbosa durante discussão sobre a conjuntura econômica e as perspectivas de crescimento para a economia brasileira ao lado do ex-ministro Delfim Netto e do economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros. De acordo com o chefe do Planejamento, o Brasil está “construindo um novo consenso político que irá gerar um novo ciclo de desenvolvimento e uma sociedade com igualdade de oportunidades”.

A declaração do ministro vai de encontro às críticas contra o ajuste fiscal feitas por movimentos sociais e setores à esquerda, que lamentam em especial a revisão de benefícios trabalhistas.

Com um discurso alinhado ao do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, Barbosa disse que o governo está corrigindo “falhas” nos programas e serviços oferecidos ao cidadão pelo governo, o chamado Estado de bem-estar social. “Temos de debater sobre qual é o papel do estado no século XXI? O Estado do bem-estar social veio para ficar no mundo, mas ele se adapta à sociedade. Um Estado com a população jovem requer uma ação diferente de um Estado com a população mais envelhecida”, afirmou.

O pensamento do ministro é compartilhado com o economista-chefe do Bradesco. “O ajuste fiscal está para fortalecer o Estado de bem estar brasileiro e não torná-lo mais distorcido”, afirmou Octavio Barros. “Sempre há uma injustiça com quem faz reformas porque os benefícios são sentidos depois, mas a transparência e o diálogo da equipe econômica do governo com a sociedade é muito positivo. Isso é uma mudança histórica”, afirmou.

Para Delfim Netto, o próximo passo para o Brasil é mitigar a transmissão geracional de riquezas. “Não há uma corrida honesta em uma sociedade desigual porque boa parte de nossa gente não tem duas pernas para correr. E o desenho apresentado pelo ministro recupera esse ideal de uma sociedade civilizada. O processo de inclusão é fundamental para dar condições do cidadão virar cidadão, construir sua cidadania”, defendeu.

Recado ao setor privado

Delfim Netto, que também é presidente do Conselho de Economia da Federação de Indústrias do estado de São Paulo (Fiesp) e colunista de CartaCapital, afirmou a necessidade de o governo acalmar o mercado financeiro. “O Brasil não está à beira da catástrofe”, afirmou.

Segundo ele, houve um desequilíbrio nas contas públicas motivados pela crise econômica global e por razões políticas. “Tivemos um ano ruim em 2014, uma dificuldade produto de um axioma da política: o primeiro dever do governo é continuar governo. De forma que 2014 foi uma coleção de esforços para a reeleição, o que levou a este cenário preocupante, mas que está sendo corrigido”, opinou.

O economista-chefe do Bradesco concorda com a avaliação de Delfim Netto. “Os desafios são muito maiores diante deste contexto mundial adverso que atravessamos. Estou convencido de que estamos construindo uma nova arquitetura macroeconômica no Brasil, na qual o ajuste é importante. A agenda de reformas é ampla e está na hora do setor privado conceder o benefício da dúvida ao governo e apoiá-lo”, disse Octavio de Barros.

A previsão do banco para a economia brasileira é mais pessimista do que a do governo federal. O Bradesco prevê uma queda de 1,8% do PIB, enquanto o Planalto trabalha com uma retração econômica de 1,2%. Por outro lado, ambos concordam que o crescimento e o controle da inflação serão retomados em 2016, após um reajuste fiscal necessário.

Citando o pacote de concessões planejados pelo governo, Delfim Netto destacou a necessidade do governo acelerar os investimentos para incentivar um ambiente positivo de negócios no País. “É preciso mobilizar aquilo que já está aprovado pelo governo para criar um estado de espírito melhor. Só cresce quem acha que vai crescer. Desenvolvimento é um estado de espírito que estimula pessoas”, disse.

Em defesa do governo, Barbosa disse que diversos projetos de parcerias e concessões estão em fase avançada de estudo pelo governo. O ministro também defendeu a política de incentivos de crédito adotada no primeiro mandato da presidenta Dilma e criticada pelo setor privado. “O crédito público em momentos de crise cumpre um papel de estabilização, o que vai além do desenvolvimento. Isso já cumpriu seu papel e atingiu seu limite, agora temos que nos adequar a uma nova realidade.”

Além disso, Barbosa também respondeu a críticas de que o Brasil adotou medidas protecionistas, que acabaram por afetar o comércio brasileiro com outros países. “Na guerra cambial de 2014 [quando o Banco Central Americano injetava dólares no mercado] , o governo de fato adotou medidas protecionistas e isso está sendo readequado agora. A presidente vai ao México na semana que vem, vai aos EUA no final de junho, há discussões com a Colômbia, Cuba, China e União Europeia. Acordos estão em discussão”.

Em recado ao Congresso, Barbosa disse que o Brasil só depende de si mesmo para superar a crise. “A capacidade brasileira de superar o problema depende de nós mesmos. Hoje, o Brasil tem menos vulnerabilidade externa. É um desafio mais político do que econômico”, afirmou.