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O lixão dos repressores

por Willian Vieira — publicado 05/10/2012 11h31, última modificação 05/10/2012 11h31
Livro compila a história de Perus, a vala de desova das vítimas da ditadura
perus

Com o tempo, a cova clandestina também recebeu os corpos de pobres e desvalidos, entre eles, 500 crianças. Foto: Marcelo Vigneron

Foi uma resposta macabramente concreta à dolorosa questão que acompanhara por anos a fio os familiares de tantos homens e mulheres assassinados pela ditadura: o que havia sido feito de seus corpos? Atônitos, o País e as famílias dos desaparecidos políticos descobriram a resposta ao mesmo tempo, e da pior forma possível. Em um canto do Cemitério Dom Bosco, no afastado bairro de Perus, na periferia de São Paulo, uma vala de 30 metros de comprimento por 50 centímetros de largura e 2,7 metros de profundidade surgiu aos olhos do público, tão escancarada quanto a tortura do período. Era 4 de setembro de 1990. Sob o olhar da mídia, os ossos foram saindo: 1.049 ossadas encheram dezenas de sacos plásticos, empilhados na grama um a um. Neles inexistia identificação dos corpos. Vítimas políticas e indigentes mortos de fome e meningite, inclusive crianças, dividiam os sacos. Em alguns, havia até três crânios. E assim, o passado dos dias de chumbo retornou à opinião pública, exumando a ditadura na memória coletiva do Brasil.
Muito do que se encontrou na vala de Perus continua um mistério. A maior parte das ossadas segue sem identificação, no aguardo de um exame de DNA, de uma descoberta, de outra perícia qualquer. Estão enterradas para sempre no esquecimento. Mas o que foi de fato esclarecido sobre o show de horrores perpetrado pelo governo dos militares nos anos 60 e 70, a partir da triste cena no cemitério paulistano, está agora mais esmiuçado que nunca em Vala Clandestina de Perus: Desaparecidos Políticos, Um Capítulo Não Encerrado da História Brasileira. Lançado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em parceria com o Instituto Macuco, o livro traz um compêndio com nove artigos de figuras ligadas à tétrica descoberta, como a ex-prefeita Luiza Erundina, a cargo de São Paulo à época, o jornalista Ivan Seixas, coordenador da Comissão da Verdade Estadual da Assembleia Legislativa, e a ex-presa política Maria Amélia Teles. Há ainda os relatórios mais importantes produzidos sobre a vala, como aquele da CPI da Câmara Municipal e o da Comissão de Acompanhamento das Investigações criada por Erundina.
“Há mais de duas décadas, descobriu-se que naquele cemitério municipal, construí­do em 1971 pelo então prefeito Paulo Maluf, havia uma vala clandestina com 1.049 ossadas acondicionadas em sacos plásticos sem nenhuma identificação”, escreve a ex-prefeita. A menção não é gratuita. Maluf fora escolhido pelos militares para administrar a cidade quando a tortura, a morte e o desaparecimento de opositores políticos viraram política de Estado, especialmente em São Paulo. Não há registro documental da decisão, mas o cemitério seria utilizado não apenas para servir de última morada para os mortos da região, mas de depósito de cadáveres de indigentes, vítimas da violência urbana, das ações do esquadrão da morte e para enterrar, ou fazer “desaparecer”, os corpos de militantes de esquerda.
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