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O kitsch do kitsch

por Ana Ferraz publicado 19/04/2013 10h55, última modificação 19/04/2013 10h55
Com talento, sensibilidade e verve, Felipe Cordeiro une o universo da lambada paraense ao da vanguarda paulistana
Felipe Cordeiro _05_04_2013

'El bigodón endiablado'. Cordeiro mergulhou nos ritmos amazônicos aque o pai, Manoel, pesquisa há anos. Foto: Veronica Manevy

Felipe Cordeiro, compositor e instrumentista herdeiro de nobre estirpe musical originada no Pará, conseguiu o que para ele mesmo parecia um prodígio, ligar coisas não ligáveis. Em seu segundo disco (o primeiro é Banquete, 2007), Kitsch Pop Cult, uniu o universo da lambada ao da vanguarda paulistana. Apropriou-se do conceito de entretenimento e o mergulhou num balde de criatividade. Filho de Manoel Cordeiro, produtor pioneiro da lambada, violonista louvado pela habilidade e pesquisador laborioso dos ritmos amazônicos, Felipe aprofundou-se no universo musical paterno em busca de respostas. “Comecei a pegar os discos que ele fazia e olhar de outros ângulos, avaliar o quanto essa indústria tem de conservador e também de um mundo contemporâneo interessante.” Com propriedade, costurou influências, detectou similaridades e fez um disco que partiu da cópia para chegar ao original.

“O kitsch é cópia e como tal vem a ser cafona e brega. Eu olhava para o tecnobrega e via que aquela estética era a cópia da cópia da cópia...”, diz o músico de 29 anos, nascido em Belém. “Toda música pop do planeta tem um pé nessas duas esferas, da cópia e da criatividade.” Haveria um mundo novo a ser descortinado a partir do tecnobrega ou esse gênero não passaria de música de massa? Com esta dúvida a lhe corroer o cérebro e estimular a criatividade, Felipe pôs em ação o lado filósofo aprimorado na universidade. “Sempre tive essa tendência à inutilidade”, conta, riso franco a iluminar o rosto onde repousa um cultivado bigode.

E dá continuidade ao exercício que o move, a reflexão. “O tecnobrega nasce da precariedade e da informalidade. É uma arte imprudente porque não tem uma referência musical. Tenta-se imitar a lógica pop de fazer uma dancinha, uma festa divertida, o que tem em qualquer outra. A diferença é que os caras vêm da periferia, usam computador caseiro e têm as referências do sujeito que vende CD pirata. Isso dá uma música nova, que mexe com a cabeça de todo mundo, incluindo a minha.”

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