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Copa do Mundo 2014

O ex-dono da bola

por Rodrigo Martins e Willian Vieira — publicado 24/02/2012 11h03, última modificação 24/02/2012 11h03
A melancólica resistência de Ricardo Teixeira é um sinal de novos tempos no futebol nativo
Ricardo Teixeira

Ricardo Teixeira, sem moral com governo e autoridades, em evento de julho. Foto: Wilton Junior/AE

Há mais de duas décadas a dar a palavra final sobre o futebol brasileiro, e a despeito das acusações que o alvejam desde sempre, Ricardo Teixeira jamais largou o osso da presidência da CBF. O momento, porém, nunca esteve mais próximo. Alvo de novas denúncias no Brasil e prestes a ver divulgado um comprometedor processo judicial na Suíça, o cartola já teria organizado uma saída à francesa, ao vender propriedades como o laticínio Linda Linda e a fazenda Santa Rosa em Piraí (RJ) e ensaiar a mudança para um condomínio de luxo em Boca Raton, na mesma Miami onde passou o carnaval. A manobra evitaria um eventual confisco de seus bens, estimados em 50 milhões de reais, e seria uma opção para sair dos holofotes. Mas o cartola ainda pretende tentar a última cartada. Apesar dos rumores sobre sua possível renúncia, Teixeira se aferra ao cargo. E deve fazê-lo ao menos até conseguir indicar um substituto confiável na presidência da entidade. Na quarta-feira 29, uma assembleia convocada por ele proporá mudanças no estatuto da CBF, para debelar o crescente movimento por novas eleições.

Teixeira se debate no cargo justamente quando o Brasil se prepara para sediar a Copa do Mundo de 2014. Tem necessariamente papel-chave neste momento. Além de dirigir a CBF, o chefão do futebol preside o Comitê Organizador Local (COL), peça fundamental para a construção dos meios físicos e políticos para a realização do torneio. Nos bastidores, Dilma Rousseff torce para que a crise da CBF termine o mais rápido possível. Sua preocupação nada tem a ver com o destino de Teixeira. A presidenta não nutre por ele qualquer simpatia, sabe, porém, em breve chegará o momento em que o cartola não poderá mais se esconder atrás da popularidade dos jogadores Ronaldo e Bebeto, que aceitaram o papel de laranjas no gerenciamento do Mundial.

O desgaste do dirigente tem atrapalhado inclusive a intermediação do COL com a Fifa. Em outubro passado, Dilma chegou a ser consultada secretamente por Jerôme Valcke, secretário-geral da entidade, sobre nomes para substituir o presidente da CBF. O pedido foi feito quando a presidenta esteve na Bélgica para tratar de divergências em relação ao projeto da Lei Geral da Copa, encaminhado pelo governo ao Congresso Nacional, para determinar as competências da Fifa na Copa das Confederações, em 2013, e no Mundial de 2014. Dilma negou-se a ter a conversa com Valcke, a quem lembrou: a CBF é uma entidade de direito privado. Mas sabe que não pode ficar alheia à crise da CBF por conta das graves consequências para a organização do evento. Ela nega, contudo, ter pedido ao deputado Vicente Cândido (PT-SP), relator da Lei Geral, que articule outro nome para substituir Teixeira no COL. A estratégia é deixar que o cartola se resolva com a Fifa e afastá-lo do Legislativo, onde sempre manteve uma bancada informal. O objetivo do governo é consolidar os 11 compromissos de garantia fechados, em 2007, com a entidade máxima do futebol mundial, onde se inclui a aprovação da lei, a ser votada na Câmara nos próximos 15 dias. E assim selar de vez a distância da Copa brasileira com um nome tão maculado por denúncias.
*Leia matéria completa na Edição 686 de CartaCapital, já nas bancas

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