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O belo não está à venda

por Rosane Pavam publicado 01/02/2013 11h29, última modificação 01/02/2013 11h29
A submissão ao mercado impede que a arte relevante apareça

Brasil, país da sobremesa, escreveu Oswald de Andrade para expressar uma terrível constatação. Este era um território nascido para o deleite extrativista, irrelevante institucionalmente, distante mesmo de uma noção de país. O Brasil também fora entendido como cordial pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, que atribuíra a esse qualificativo uma ironia. Éramos cordiais porque agíamos ora mansos, ora violentos, a partir do coração. E assim éramos, apenas emotivos, porque a razão não parecia destinada a nós. O país que se vira impedido em 1785 de usar os míseros teares disponíveis para fabricar tecidos não se acostumara a criar localmente, a ter voz própria e instituições fortes. Ele também não oferecera a seus habitantes mediações sólidas como a justiça. Os brasileiros não enxergaram a quem recorrer na sua vida cotidiana e acharam que dar um jeitinho em tudo compensaria sua miséria de origem.

Éramos também melancólicos, saudosos do que poderíamos ter nos tornado. Daquilo que todos pareciam nos predizer, um brilhante futuro. Melhor ver a nós próprios como um país do deleite, da criatividade, da superação, do que como uma nação politicamente decisiva, estruturalmente pronta a enfrentar os desafios da desigualdade. Assim, plenos dessa esperança risonha e irônica em nossa cultura tão especial, tivemos períodos artísticos de brilho em condições adversas. Não é o caso, aqui, de lamentar a decadência de uma cultura se ela ainda não conheceu seu verdadeiro apogeu. Mas desde a colonização houve momentos em que superamos as expectativas. Machado de Assis, por exemplo, produziu o melhor de sua obra literária quando apenas 18% dos brasileiros eram alfabetizados. Mais, ele preparou o leitor para a percepção aguda e melancólica de sua própria condição e o educou em grande parte, como apontou o pesquisador Hélio de Seixas Guimarães. E o que os brasileiros educados fizeram disso?

No conjunto de textos que CartaCapital aqui apresenta, discute-se um vazio da cultura ou um possível vácuo de promessas culturais presentes apesar do crescimento da economia e da exclusão de boa parte dos brasileiros de sua condição de miséria nos últimos anos. Talvez se trate de um vazio de relevância se o comparamos a um passado em que a música visceral de Pixinguinha, Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi, Wilson Batista e Noel Rosa, por exemplo, ecoava nacionalmente nas rádios, contra a repetida glorificação ao amor besta hoje promovida por Ivete Sangalo, Claudia Leitte e outros sucessivos semideuses da malhação musical em DVDs, reality shows e festas corporativas.

*Leia matéria completa na Edição 734 de CartaCapital, já nas bancas

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