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Escrever com a luz

por Rosane Pavam publicado 22/06/2012 12h37, última modificação 22/06/2012 12h37
Pesquisa mostra como as fotografias imperiais ilustraram o sonho brasileiro de modernidade
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Mercadoria. Escravos simulam a função do barbeiro na foto de Christiano Júnior, em 1865. Foto: Reprodução do livro

Dom pedro II teve um sonho. Ele iluminaria o Brasil. E o transformaria naquilo que viam seus olhos imperiais. Mas Pedro compreendia o País de maneira diferente daquela entendida pelos antepassados portugueses. O Brasil, para o jovem soberano, não significava apenas o paraíso do qual tudo se extraía. Era agora a terra onde se plantavam os sonhos. Ou seriam as palmeiras? Seu avô, dom João VI, contrabandeara sementes da Palma Mater das ilhas Maurício para plantá-las no Jardim Botânico, em 1810, mas infelizmente fora imitado por seus funcionários. Disseminadas em um segundo contrabando, as mudas formaram uma nova paisagem brasileira para além dos limites do Rio de Janeiro. O país que ganhava outra natureza agora também precisava de um novo mapa. Melhor dizendo, de um espetáculo de luz para exemplificá-la.

A mis-en-scène pretendida pelo imperador para ilustrar esse novo Brasil não era o teatro, nem a ópera, nem o concerto. Dom Pedro julgava mais apropriada uma nova arte de representação, por ele entendida como realista. Aos 14 anos, em 1840, coroado imperador, ele se tornaria dono de um raro aparelho que prometia a cópia “única e verdadeira” da realidade. Não se sabe se teve paciência de usar o complicado daguerreótipo. O fato é que o desenvolvimento das técnicas reprodutivas tornou-o um obsessivo colecionador de imagens, 25 mil delas até o ano de sua morte, 1891.

A argentina Natalia Birzuela, professora do Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, entende o sonho de dom Pedro como uma manipulação. Em seu livro Fotografia e Império – Paisagens para um Brasil Moderno (Instituto Moreira Salles-Companhia das Letras, 248 págs., R$ 59), que lhe consumiu quatro anos de pesquisas, ela mostra como o imperador se serviu do novo meio para disseminar a imagem desejada de Brasil. “Ele foi o primeiro a instaurar a categoria de fotógrafo da Casa Imperial, antes mesmo que a Rainha Vitória, no Império Britânico”, diz em entrevista por e-mail a CartaCapital. Para a pesquisadora, que escreve desinteressada do peso acadêmico, quase à moda ficcional, tratou-se de “entregar” o Brasil por meio da fotografia, cuja leitura “seria acessível a qualquer um que simplesmente pudesse ver”.

*Leia matéria completa na Edição 703 de CartaCapital, já nas bancas

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