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Crianças ou mulheres?

por Willian Vieira — publicado 13/07/2012 12h14, última modificação 13/07/2012 12h14
Meninas de 11 a 14 anos casadas são comuns nos grotões do País. Com a chegada do Estado, cresce o embate entre lei e cultura
Casal

Casal. Carlos Catanheide, 48, e sua mulher, de 14: o casal não chama atenção em Conceição do Lago Açú, interior do Maranhão. Foto: Francisco Ottoni

Faz cerca de um ano que Carlos Augusto Catanheide prestou atenção na menina de bochechas cor de jambo e olhos esverdeados que entrou em sua venda para comprar farinha. Ela tinha 13 anos. Ele, 47. Calejado, ex-garimpeiro curtido na lida das minas de ouro de Roraima, havia três anos ele decidira “sossegar” na Conceição do Lago Açu natal, tomar tino, curar a solidão. Foi quando conheceu a rechonchuda menina, ainda na quarta série do primário e decidiu: “era ela”. A mãe dele tinha seus 13 anos quando casara com o pai, bem mais velho. Foi sem remorsos, então, que numa tarde de sol Carlinhos deixou o cubículo ladeado por garrafas de cachaça e sacos de víveres, caminhou 20 metros na mesma rua, entrou na sala de chão batido de Tânia Fonseca e “pediu” sua filha. Ela suspirou aliviada. “Eu disse: Olha, não é mais virgem e anda aprontando”, lembra Tânia. “Mas se o senhor quiser, e ela gostar, tá feito. Eles passaram a noite. No outro dia ele veio dizer que ela ficava.”

Em Conceição do Lago Açu, cidade de 15 mil habitantes a 346 quilômetros de São Luís, nos rincões do Maranhão, casar aos 16 anos é “casar tarde”, como explica Tânia, enquanto indica as cadeiras de plástico num canto. Com a rede e a tevê de 14 polegadas, elas completam a sala da casa de pau-a-pique rachada pela pobreza e pelo tempo, onde ela vive com o marido e dois dos seis filhos, graças à pesca e aos 130 reais do Bolsa Família. Ela só sabe assinar o nome. “Aqui, com 12 anos menina solteira é problema pruma mãe. Rapaz de 20 quer nada sério, só droga e bagunça.” A filha “começou” aos 12: foi estuprada. O namorado acabou na cadeia. O segundo batia nela. Separaram-se. Depois, ela “passou a esperar moleque na rua”. Até que o comerciante surgiu na sua porta, chapéu de palha na mão, proposta na ponta da língua. “Foi uma bênção. Nós somos pobres. Eu tirava a sandália do pé pra botar no dela. E já pensava que ela ia botar filho no mundo pra nós criar.” Quando a filha foi viver com Carlinhos, ela não estudava havia dois anos, conta. Ele a devolveu à escola. “Errado? Quando ela andava atrás de homem na rua, ninguém dizia nada. Agora que endireitou, se arrumou com o coroa, fazem denúncia? Não entendo.”

Retrato do embate entre lei e costume, entre a presença do Estado de Direito e uma cultura arcaica enraizada na fímbria de uma gente esquecida por séculos pelo próprio país, Lago Açu é uma dentre centenas de cidades nos rincões do Brasil a testemunhar, da maneira mais difícil, as mudanças trazidas pelo crescimento econômico e pelo acesso à informação. Aqui, por causa do Bolsa Família, as lojinhas pulsam na única rua asfaltada, datada da última eleição. Entre as casas de pau-a-pique despontam umas poucas de alvenaria. As motos substituíram os burros, extintos como meios de transporte. Um posto de gasolina improvisado guarda a entrada da cidade, sinal dos novos tempos. Mas as taxas de natalidade seguem altas. O esgoto escorre negro nos cantos das ruelas, caindo no lago onde porcos, urubus e peixes dividem espaço. Falta transporte, saúde, educação. “A vida tá melhor”, assevera Maria do Rosário, dona do hotel Maranhão. “Mas falta emprego.” Rosário medita, os olhos fixos na rua enlameada. “Essas meninas não têm o que fazer e ficam na folia. Eu mesma queria pegar uma de 12 pra me ajudar. Mas pega pra ver: dá cadeia.”

*Leia matéria completa na Edição 706 de CartaCapital, já nas bancas

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