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Cidade ou hospício?

por Willian Vieira — publicado 04/05/2012 09h47, última modificação 04/05/2012 09h47
Os penosos deslocamentos derrubam a qualidade de vida na maior metrópole do País e criam um verdadeiro celeiro de problemas de saúde mental
Plataformas e trens lotados nos horários de pico na estacão da luz 23/04/2012

Martírio. No horário de pico, as estações lotadas. É a rotina de Augusto Jesus de Oliveira. Foto: Rennato Testa

Poderia ser uma das cidades fictícias do escritor Ítalo Calvino. Um lugar onde a maioria dos 11 milhões de habitantes enfrenta de duas a quatro horas de trânsito por dia, espremidos em vagões com outras oito pessoas por metro quadrado ao lado de cartazes de alerta (Onde está a sua carteira agora?) ou em corredores de ônibus com ruído semelhante ao de uma serra elétrica. Bastam 48 horas de um dia de primavera para as mazelas da confluência tempo-espaço tomarem seus 1,5 mil quilômetros quadrados. Num dia, quatro cidadãos acabam na delegacia por brigar por espaço, motivo de uma interrupção de 23 minutos no metrô. No outro, os trens atrasam, gemem vagarosos sobre os trilhos, enquanto os passageiros telefonam angustiados. Na volta, a chuva alaga tudo e deixa 229 quilômetros de congestionamento às 15 para as 7 da noite, recorde do ano. Seria o assunto para os motoristas parados em parte dos mais de 7 milhões de veículos, a temer a violência em alta que descobrem na rádio dedicada ao trânsito. Podia ser pior: sem chuva, a secura e a poluição fariam o ar ficar inadequado para respirar, como todo inverno.

Ainda que apocalíptico, o cenário é real. “É minha rotina todo dia”, diz o paulistano Augusto Oliveira de Jesus. Pois ainda é noite quando, às 5h30 da manhã, o analista de suporte fecha a porta de casa em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, e parte em sua via-crúcis diária: dez minutos a pé para pegar o ônibus lotado, 50 minutos a chacoalhar até a estação de trem, onde é “empurrado pela multidão” no vagão que o leva por 50 minutos de pé até a Estação da Luz, para então – quase lá – tomar 15 minutos de metrô e caminhar outros 15 na Avenida Faria Lima, um dos locais mais ruidosos da cidade, até chegar ao trabalho, às 8, duas horas e meia depois. “Nossa, é tempo demais”, surpreende-se Jesus, ao perceber que passa cinco horas por dia ou 24 por semana em trens, ônibus e metrô só para trabalhar. Assim, 48 dias por ano de sua vida escoam pelo transporte coletivo.

Como Jesus, 33% dos habitantes de São Paulo gastam mais de três horas por dia no trânsito. Para 19%, são mais de quatro horas, segundo a pesquisa mais recente da Rede Nossa São Paulo, ONG que monitora a qualidade de vida na cidade e atesta: 70% dos moradores estão insatisfeitos com o transporte. Daí a nota 5 dada à qualidade de vida na cidade. Em média, o paulistano desloca-se por 2 horas e 42 minutos por dia. Mas o trânsito não é democrático. Na zona leste, a média é de 3,3 horas. “Todo paulistano gasta um mês por ano no trânsito. O rico num carro com ar condicionado e o pobre, num trem lotado, em condições aviltantes”, critica o empresário Oded Grajew, da Nossa São Paulo. “Imagine o impacto disso sobre a psique da pessoa?”

*Leia matéria completa na Edição 696 de CartaCapital, já nas bancas

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