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Cinema

A origem dos poderosos

por Orlando Margarido — publicado 27/07/2012 12h20, última modificação 27/07/2012 12h20
Documentários desvendam a força de heróis criadores de quadrinhos
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Origens. O Gato do Rabino, olhar amoroso de Sfar

Houve um tempo em que gato e rato eram os rivais ingênuos do imaginário popular propagado pela tevê e pelos quadrinhos. Então veio Art Spiegelman e os recolocou sob a sombra do totalitarismo, numa interpretação condizente com o instinto natural dos animais. Menos lúgubre, mas eficaz na defesa da convivência de pensamentos, Joann Sfar tomou apenas o felino e o fez símbolo do questionamento, da crítica debochada e inteligência filosófica. Souberam, dessa forma, dar ao público uma revisão atemporal justa no momento certo, talvez uma das poucas condições em comum com um colega de geração anterior. A Stan Lee coube atender uma nação sedenta de heróis em período de guerra. Logrou mais, os super-heróis. Assim como os outros, o fez a partir de suas origens.

Esse contexto se torna revelador ao assistir a quatro documentários reunidos no 16º Festival de Cinema Judaico, que acontece em São Paulo entre 6 e 12 de agosto. Nos depoimentos dos três profissionais dos quadrinhos é sintomática a referência ao tempo da infância e, no caso do americano nascido na Suécia Spiegelman e do francês de origem argelina Sfar, a convivência com a história da família de forte vínculo com o judaísmo. Para registrar o personagem, o filme Joann Sfar – Desenhos da Memória, de Sam Ball , aborda o desenhista em Nice, onde parte do clã se radicou ao deixar a Argélia. Filho de mãe ucraniana de tradição asquenaze e pai sefaradita, o autor não poderia passar incólume às influências e usou o humor característico judeu da primeira em Professor Belle e do segundo em O Gato do Rabino.

Trata-se de um dos trabalhos mais populares e premiados de Sfar, que dirigiu no cinema Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres. O Gato do Rabino, publicado em cinco volumes entre 2002 e 2006, também tornou-se um longa animado que integra o festival e tem estreia em circuito prevista para 24 de agosto, com cópias em 3D. Adaptada por ele e Antoine Deslevaux, a história sintetiza em muito o universo familiar e a temática predileta do francês a partir do protagonista do título que engole um papagaio e põe-se a falar, expressando sua vontade de conversão ao judaísmo. Estamos na Casbah da capital argelina, a cidadela onde vive o rabino Sfar, referência ao avô culto e estudioso de religião do cartunista, e sua filha. Na proposta de discutir a convivência possível entre diferentes credos, irão se juntar ao núcleo personagens adeptos do cristianismo, muçulmanos, sufistas e um pintor russo fugido de um pogrom que remete a Marc Chagall, influência assumida de Sfar.

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