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A felicidade não se compra

por Rosane Pavam publicado 02/03/2012 12h49, última modificação 02/03/2012 12h49
O Artista leva a melhor no Oscar, enquanto Hollywood deveria reaprender com Frank Capra
Oscar

Viva a comédia. A mais longa das noites, por Billy Crystal, e Dujardin com Bérénice Bejo. Foto: Robin Beck / AFP

No fim dos anos 1930, cansado dos filmes falados, o norte-americano James Agee fez um desabafo. Ele queria de volta o cinema mudo, acrobático e estimulante, responsável por distanciar o espectador da miséria cotidiana. A ausência de som engendrava o verdadeiro talento, argumentava o escritor. Sem o estorvo da palavra, Harold Lloyd, Buster Keaton ou Harry Landon criavam figuras de linguagem, ou de visão, para que o espectador perdesse a própria consciência na sala escura. Aqueles cômicos esbanjavam recursos físicos. Manter-se rijo, em pé, e depois levar o corpo inteiro ao chão, para trás, era coisa básica para eles, assim como olhar vagamente na direção de um ponto com o sorriso angelical, girar os olhos, encolher os ombros e permanecer em transe até cair de joelhos, batendo os calcanhares duas vezes, “como um sapo nadando”. Tais homens provocavam no espectador algo muito distante dos risos acanhados e fortuitos tornados usuais depois do advento do filme falado, às vezes mal falado. A imposição do som na tela havia mudado os homens na sala. Antes ruidosos, os espectadores aquietaram-se diante do falatório sem fim.

Quem prestigiava Keaton, Lloyd ou Landon, para não mencionar Charles Chaplin, exigia muito deles, já que precisava do cinema para viver. Enquanto hoje, conformados com a ausência de imaginação ou empenho de tantas narrativas, os homens entenderam não serem obrigados aos filmes como antes. Não surpreende que isso preocupe a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, uma entidade de proteção e estímulo ao cinema comercial americano, a ponto de ela fazer uma reivindicação pública nos moldes daquela promovida por Agee sete décadas atrás. Domingo 26, durante a 84ª cerimônia de entrega do Oscar, no Hollywood & Highland Center, em Los Angeles, os ditos acadêmicos comunicaram de maneira reluzente que o cinema deveria ser posto nesse lugar do passado, onde certa vez se mostrara essencial.

A longa e estapafúrdia cerimônia de entrega dos prêmios começou a ser expressa pelo cenário do auditório, a evocar uma antiga sala de projeção, e pela escolha do apresentador Billy Crystal, cuja carreira cômica, iniciada na tevê, expandiu-se pelo cinema e palcos da Broadway por quatro décadas. Crystal cantou, sorriu, desajeitou-se, cutucou os presentes, e tudo isso sem jamais prejudicar a arrumação dos cabelos com a tonalidade do corvo. Suas piadas foram antigas e permitidas, algo que não passou despercebido por Deus, o dono do perfil The TweetOfGod, da rede social Twitter: “Billy Crystal me transporta a um tempo mais simples e inocente, antes de as coisas serem engraçadas”, tuitou o Senhor. Para Crystal, por exemplo, havia graça no fato de tantas mulheres se destacarem na premiação, entre elas J. Edgar Hoover, o chefão homossexual do FBI, cuja cinebiografia foi ignorada pela Academia.

*Leia matéria completa na Edição 687 de CartaCapital, já nas bancas

 

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