Você está aqui: Página Inicial / Destaques CartaCapital / A avalanche evangélica

Destaques CartaCapital

Newsletter

A avalanche evangélica

por Rodrigo Martins publicado 20/07/2012 12h38, última modificação 20/07/2012 12h38
Os crentes somam 42,3 milhões, podem chegar a um terço da população em dez anos e têm sede de participação política
carnaval

Carnaval. Do funk gospel aos trios elétricos da Marcha para Jesus, há opções para todos. Foto: Epitácio Pessoa/AE

As batidas fortes e repetitivas, o estridente som remixado e as luzes piscando freneticamente causavam frisson entre os jovens naquela noite de sábado. Pulavam, cantavam, arriscavam desajeitados passos de dança diante do palco esfumaçado. Fazia frio, e não se via nenhuma garota de miniblusa, calça apertada ou microvestido. Mesmo assim, quem avistasse a cena a distância dificilmente arriscaria outro palpite: o estacionamento do Clube Mauá, em São Gonçalo (RJ), abrigava mais um agitado baile funk, desses que se multiplicam entre as comunidades mais pobres da região metropolitana do Rio. Ledo engano. O estilo musical era mesmo o funk, mas o evento em questão era a Marcha para Jesus.

O funk gospel encerraria a extensa jornada de shows programados para o dia. “Abraça, abraça, abraça o irmão!”, entoavam em coro os jovens da plateia, numa releitura cristã do popular “Agarra, agarra, agarra os gordinhos” das festas profanas. Quem conduzia o “pancadão de Deus” era o cantor Adriano Melo de Lima, de 34 anos, filho de um pastor auxiliar da Igreja do Nazareno. “Quando era adolescente, escutava música secular escondido da minha família. Meus pais foram os primeiros a recriminar a ideia de cantar funk gospel, mas o pastor da minha igreja apoiou a iniciativa e agora faço até cinco shows por dia nos fins de semana. Resultado: mais jovens estão frequentando os cultos”, afirma, enquanto fãs aguardam a oportunidade para tirar uma foto com o ídolo, ora engajado no projeto de se eleger vereador no município de Mesquita, Baixada Fluminense, pelo PSC. “Quero regenerar jovens envolvidos com o crime e com as drogas por meio de projetos de esporte e cultura.”

Adriano Gospel Funk, como prefere ser chamado, é um exemplo da nova geração evangélica em ascensão. Mais liberais nos costumes, a maioria dos fiéis não recrimina mais o uso de cosméticos, as telenovelas, o futebol no fim de semana. Eles têm forte presença na mídia, aspirações de maior participação política e não dispensam uma festa. No mesmo palco do “pancadão de Deus”, revezaram-se grupos de pagode, rock, forró, uma espantosa variação de ritmos dedicados ao louvor de Cristo. Em todo o País, as incontáveis Marchas para Jesus seguiram scripts semelhantes. Passeatas carnavalizadas, desfile ao som de trios elétricos, megashows, milhares – em algumas capitais centenas de milhares – de fiéis reunidos para celebrar o orgulho cristão.

*Leia matéria completa na Edição 707 de CartaCapital, já nas bancas

registrado em: