Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Voz do povo

Cultura

Crônica do Menalton

Voz do povo

por Menalton Braff publicado 16/01/2015 18h30, última modificação 18/06/2015 17h00
Ela muitas vezes parece mais diabólica do que divina. Mas é assim a democracia: serve aos interesses de quem tem o poder de impor sua vontade, o que já acontecia desde a sociedade grega

Nada mais idiota do que algumas crendices populares. Não só pelo que dizem, mas também porque geralmente são tomadas em sentido absoluto. Essas verdades, que ninguém sabe como nasceram, nem onde, mas que já nos vêm de muito longe, não resistem à menor análise crítica. A sabedoria popular achava que apontar estrela faz nascer verruga na ponta do dedo, que leite com manga é morte na certa, e outras afirmações do mesmo gênero. O fim da lista dessas verdades populares não está ao alcance das melhores vistas.

Alguns anos atrás, alguns de vocês devem ter lido a notícia de um meliante da cidade de São Simão que, depois de aliciar meninas para a prostituição infantil, entre outros delitos, foi um dos candidatos à vereança mais votados do município. E, como era a voz do povo que ali na urna se manifestava, o cidadão, cujo nome felizmente esqueci, pois me fazia muito mal, foi condecorado, não, não é assim que se diz, foi empossado em seu cargo, o que é praticamente a mesma coisa. Nunca mais ouvi falar do caso nem sei se já existe por lá uma lei instituindo a prostituição infantil. Uma coisa é certa: em lugar de estar na cadeia, a voz do povo colocou-o na Câmara de Vereadores.

A voz do povo muitas vezes parece mais diabólica do que divina. Mas é assim a democracia: serve aos interesses de quem tem o poder de impor sua vontade. E isso já acontecia nas sociedades que a inventaram, como a sociedade grega.

Alguém pode afirmar, cheio de esperteza, mas por pura ingenuidade, que as crendices só proliferam entre povos mais atrasados, de pouca cultura. Que povos educados jamais se deixam guiar por crendices ou falsas verdades. Tá bom.

No tempo do Hitler, aquele cidadão meio austríaco, meio alemão, filho de uma judia, meio desequilibrado, também, ele e seus asseclas conseguiam levar às ruas multidões imensas, que dariam suas vidas para defendê-los. Alguns deram. Mas felizmente não os defenderam. A voz do povo.

Sempre passei por baixo de escada sem que me acontecesse nada, pois era uma verdade em que nunca acreditei. Um dia resolvi passar por fora do triângulo formado pela escada e uma parede, tropecei numa lata de tinta que me pintou o sapato. Então pensei, o azar é não passar por baixo da escada, mas é um assunto que já descamba para a metafísica e não sou bom em filosofia. Hoje passo indistintamente por baixo ou por fora da escada e talvez por isso não tenha tido muita sorte na vida. Quem pode saber?

Sobre gato preto, que dá azar, aí não. Tenho um vizinho que tem um gato e uma gata, ambos pintados de piche. Ele já ganhou duas vezes na loteria. Nunca vi ter tanta sorte. Faz dois, três meses que a gata preta do meu vizinho pariu uma ninhada de gatinhos, todos pintados de piche. Meu vizinho, para se desfazer dos filhotes, acabou me dando um deles.

Até hoje não ganhei na loteria. Na verdade, não ganhei nada, nem espero ganhar, e também espero não perder, pois gato, ainda mais sendo preto, não tem nada a ver com nosso fado.