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por Marcio Alemão publicado 07/09/2010 10h39, última modificação 07/09/2010 10h41
Por que gastar com carro e televisão? Vamos investir em fogões

Por que gastar com carro e televisão? Vamos investir em fogões

Se a culpa é dos impostos, lutarei para que sejam reduzidos. E posso ir além, por que não? Posso prometer que lutarei para que sejam eliminados de todo e qualquer produto gastronômico. Os importadores de bebidas e comidas não vão pagar nenhum tributo ao meu governo, pois seu trabalho será considerado de profundo interesse da população; um trabalho nobre que, ao contrário do que a oposição poderia argumentar, não contempla apenas e tão somente o aspecto dionisíaco da questão.

Não se pode furtar da população a possibilidade de que a mesma venha a tomar contato com a riqueza de um bom vinho produzido na Borgonha, no Piemonte. E ainda no Piemonte, quando chegar o tempo das trufas brancas, meu governo não só as isentará de impostos como vai criar incentivos variados para que sejam trazidas até nós. Uma linha de crédito especial com benefícios cumulativos poderá ser utilizada por todos que quiserem fechar pacotes gastronômicos regionais. No Piemonte temos as trufas, os vinhos, alguns embutidos. Mas isso será extensivo a todos os cantões gourmets do planeta.

E chegará um tempo, prometo, que na cesta básica do brasileiro só teremos produtos de alta qualidade. Chega de enlatar ervilhas vagabundas. Chega de produzir óleo que mais se presta a uso mecânico. Feijão, só novinho para dar bom caldo. Arroz, só os que rendem mais e ficam soltinhos. A sardinha passará por uma reavaliação. Uma pesquisa profunda vai dizer se o povo gosta, de fato, daquela coisa que vem em latinhas. Aulas de apuro do paladar serão obrigatórias. Vou criar a merenda gourmet.

Considerem que este nosso gigante verde-amarelo não para de crescer e que a maioria das pessoas está ficando cada vez mais rica. Por que continuar gastando com carro e televisão? Vamos investir em fogões melhores. Fogão que esquenta por fora será banido do mercado e seu fabricante receberá uma multa de alguns milhões. Panela ordinária de alumínio, que solta alumínio e solta o cabo também não será mais fabricada.

Em todas as casas populares que vou construir – serão milhões – nenhuma planta será aprovada se não contemplar um espaçoso terraço gourmet. Junte as pontas, junte as promessas. A criançada vai chegar da escola e vai querer mostrar para os pais como se faz uma verdadeira terrine de foie gras – sim, elas terão aulas sobre a França – ou um autêntico e bem molhadinho cuscuz de camarão sem sardinha vagabunda para enfeitar. E no empório da esquina o pai poderá comprar um belíssimo suco orgânico de uvas para a molecada e, quem sabe, um pinot noir, ou será que vale arriscar um branco da Alsácia? O Zé da Venda com certeza vai indicar a melhor pedida.

Criarei, prometo, o Bolsa Restaurante. Pessoas como eu e você, que não mais estão conseguindo usufruir dos prazeres da mesa alheia, poderão pleitear esse benefício que nos permitirá, pelo menos duas vezes ao mês, frequentar um bom restaurante.

Meu governo vai cuidar e indenizar todo aquele que, por falta de opção, consumiu verduras e frutas com excesso de veneno e hoje padece de algum mal. Nutrição será matéria também obrigatória nas escolas e nas empresas. Não será por falta de alerta que um incauto trabalhador comerá duas ou três vezes por semana salsicha com molho de tomate e arroz.
Se eleito, vou entrar com os dois pés no peito nesse assunto chamado PEIXE.

Como é que conseguimos criar bois com tanta facilidade e não conseguimos colocar em prática o verso de Dorival Caymmi: era só jogar a rede e puxar a rede. Por que é tão difícil encontrar peixe fresco nas cidades litorâneas do estado de São Paulo? Por que o peixe é tão caro? Vamos investigar. Se batermos de frente com supostas máfias em cooperativas, Vamos enfrentá-los. E tenho muito mais a prometer. Por ora, vote em mim se você sonha com um Brasil que come e bebe melhor.