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Viver pelo sublime

por Willian Vieira — publicado 06/05/2011 16h39, última modificação 06/05/2011 16h44
Morre José Renato Pécora aos 85 anos. Ele ajudou a fundar o Teatro Arena e levou ao palco, em 1958, o clássico "Eles Não Usam Black-Tie". Com o baixar das cortinas no último domingo, encerrou-se um longo e crucial capítulo da história do teatro brasileiro

Foi uma morte artística a de José Renato Pécora, uma morte em três atos. No primeiro, Zé Renato subiu ao palco em 12 Homens e Uma Sentença, peça que o trouxera de volta à atuação após mais de meio século. Ele começara a carreira como ator, mas logo enveredou pelo outro lado do palco. Então domingo, como nono jurado da trama, ele interpretou mais um capítulo desse recomeço. Logo as cortinas baixaram e ele saiu com amigos, onde a última ceia o esperava no restaurante Planeta’s, reduto de atores no Baixo Augusta. Era a despedida. Ao chegar à rodoviária do Tietê para pegar o ônibus para o Rio, Zé Renato sentiu o coração. Morreu de infarto no hospital, no começo da madrugada de segunda, deixando uma herança fincada há meio século.
Foi em 1958 que Zé Renato levou ao palco como diretor do jovem Teatro Arena, que ele ajudara a fundar com outros atores da Escola de Arte Dramática, a antológica Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri. Era uma peça sobre operários em greve. Tão distante do grande teatro europeu com que o Brasil se acostumara, ela caía feito luva em seus ideais de uma dramaturgia nacional. Novos personagens, menos custos e mais interação entravam em cena no palco circular que aproximava o público do texto e o texto do sublime. Proposta que o acompanharia no Teatro Nacional de Comédia, com peças de Nelson Rodrigues e Dias Gomes, e marcaria sua carreira.
Ao todo, Zé Renato dirigiu mais de 70 peças, como o clássico Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho. Fundou ainda outras companhias, como o Teatro dos Arcos, e, no ano passado mesmo, dirigiu 15 jovens atores em uma peça de Brecht. Mas tempo era a questão corrente para o homem de 85 anos que queria viver bem mais. Com o baixar das cortinas no domingo, encerrou-se também um longo e crucial capítulo da história do teatro brasileiro.