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Cultura

Crônica do Menalton

Virtus in medium est

por Menalton Braff publicado 20/06/2014 11h41
A virtude não está no excesso, tampouco na ausência da coragem, mas na justa medida com que o homem corajoso é dela aquinhoado
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Aristóteles: vícios dão-se por falta ou excesso

Estávamos outro dia falando sobre exageros, seus perigos, e algumas histórias foram lembradas. Meu amigo Adamastor, que além de gigante é filósofo nas horas vagas, ponderou que virtus in medium est e, como autoridade para seu argumento, lembrou-nos Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), que, em sua obra Ética a Nicômaco, utilizando-se de uma extensa lista de vícios e virtudes, argumenta que os vícios dão-se por falta ou excesso, e que a virtude está no meio.

Um dos casos, entre tantos outros utilizados por Aristóteles, é a coragem. A seu excesso, o estagirita chama de temeridade e mostra os perigos com que se defronta o temeroso. Sua falta, ou ausência, ele denomina de covardia e descreve os males que o covarde causa a si mesmo. A virtude, pois, não está no excesso, tampouco na ausência da coragem, mas na justa medida com que o homem corajoso é dela aquinhoado.

O assunto me lembrou uma história que ouvi do Dr. Isaías Pessotti. Um amigo seu, acadêmico e de uma erudição extraordinária, orgulhava-se de conhecer tudo da língua grega, sem jamais ter visitado o berço de nossa civilização.

Pois foi depois de aposentado que resolveu apreciar de perto as ruínas do Partenon e outros monumentos da antiga Grécia. Hospedou-se em um hotel perto do centro de Atenas e começou seus passeios ali por perto, digamos, passeios concêntricos, pois seu propósito era conhecer de corpo presente a cidade que já debulhara com seus olhos em cima dos livros lidos, que não tinham sido poucos.

Na terceira ou quarta tarde em que canelava pelos arredores do centro da cidade, o erudito, que havia almoçado muito pouco, sentiu fome e entrou numa padaria.

O balconista ouviu seu pedido e franziu a testa. Vendo-se desentendido, o erudito repediu seu pedido. Nada. A expressão do moço não melhorou. Foi então que chamaram o gerente. E a história se repetiu. Eles não se entendiam.

Um cidadão, não tão erudito como o brasileiro, mas homem de cultura, pediu licença para intervir e perguntou ao erudito se ele era estrangeiro

− Sim, sou brasileiro, foi a resposta.

− Logo se nota que o senhor veio do exterior. O senhor quer comprar pão, não é mesmo?

− Certamente, é o que estou pedindo.

− Pois é – acrescentou o homem culto – mas a língua grega que o senhor está empregando nós já deixamos de usar há mais de 2 mil anos.

Meus amigos disseram que minha história não se encaixava muito bem no assunto que nos ocupava, mesmo assim me perdoaram por terem gostado da anedota.

Então alguns deles iniciaram uma discussão sobre erudição e cultura, suas diferenças, mas como não eram oposições, aleguei que nenhuma das duas era vício ou virtude, portanto nada tinham a ver com o início de nosso assunto.

Resolvemos suspender a sessão.

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