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Virada 2013: os problemas e as soluções

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 20/05/2013 12h28, última modificação 20/05/2013 13h54
A festa foi exatamente igual à vida real. Ou melhor, foi exatamente igual a uma versão espetacularizada da vida real
Divulgação/Prefeitura de SP
Virada Cultural

Público durante a Virada Cultural

A Virada Cultural 2013 foi exatamente igual à vida real. Ou melhor, foi exatamente igual a uma versão espetacularizada da vida real.

Exatamente como na vida real, a Virada foi composta, sobretudo em sua primeira metade, por problemas visíveis, vistosos, sérios, graves. Arrastões, assaltos, brigas, sujeira, algumas programações (de vida) atrasadas, e assim por diante.

Aí amanheceu. Virou. Em especial na segunda metade da Virada, os problemas gritantes conviveram com soluções sutis, talvez imperceptíveis a olho nu (ou desarmado). Conviveram com a proposição quase silenciosa de soluções, com a vida tentando se rearranjar de modo talvez invisível para quem gosta mais de problemas do que de soluções.

Eu, por exemplo, vi o largo do Arouche entupido de lixo ao final do show bombadíssimo da Banda Uó. Continuei circulando pelo centro e, poucas horas depois, saí do show da Wanderléa no Theatro Municipal e encontrei ruas limpas, impecáveis. Andei a pé pela Cracolândia rumo ao show do Criolo e à Viradinha Cultural,  passando por ruas reluzentes, molhadas (cheguei a pensar que tinha chovido), lavadas. Nos bastidores do show dos Racionais MC’s na praça Júlio Prestes, encontrei o subprefeito da Sé, Marcos Barreto, devidamente uniformizado com o colete verde-limão dos garis da Prefeitura. “A cidade está limpa”, ele abriu meus olhos.

Da posição de “espião” (a um só tempo repórter e integrante da equipe de produção), testemunhei algo de que os jornalistas presentes à entrevista coletiva do final da tarde de ontem pareciam duvidar, mas que se afigurava na mesa perfilada por Fernando Haddad, o prefeito, Juca Ferreira, o secretário de Cultura, Reynaldo Simões Rocha, coronel-tenente da Polícia Militar, subordinado ao governo estadual de Geraldo Alckmin. Sou testemunha de que o que que essas autoridades afirmavam e reafirmavam na coletiva não é cascata: as diversas áreas de comando (segurança, saúde, limpeza, higiene, abastecimento, alimentação, cultura) trabalharam integradas e em estreito contato durante esta Virada. O prefeito chegou a mencionar que isso era inédito.

O problema que você NÃO viu (e portanto esteve invisível durante a Virada) tem a ver com a harmonia interna que esses diversos poderes obtiveram. O cara que batalhava mais evidentemente para isso dentro da Secretaria de Cultura se chama Fábio Maleronka, que encontrei chorando feito criança (ambos, ele e eu) ao final do show dos Racionais.

Se a questão da segurança acoplada à da violência até este momento parece ter sido O problema da Virada 2013, foi justamente o show dos Racionais o lócus de apresentação das mais sutis, delicadas e potentes soluções. Cá entre nós, meio mundo esperava pancadaria na volta dos Racionais ao centro. O show deles transcorreu em perfeita paz, harmonia e tranquilidade – fruto, eu sei, de um formidável pacto silencioso costurado entre rappers, policiais, gestores públicos e espectadores.

Voltarei a esse tema nos próximos textos, inevitável e incansavelmente, mas a fala de Mano Brown foi grávida de proposição sutil de soluções potentes. O diagnóstico foi oferecido por ele na bucha, diante do prefeito (ao qual o rapper não fez nenhuma referência direta, nem de agradecimento nem de crítica, nem de problema nem de solução) e de seu filho de 20 anos, Frederico Haddad. O discurso do poeta foi claro e evidente, e só quem é clarividente pôde ver. Mano Brown com a palavra (em vídeo, aqui), no meio da tarde do domingo 19:

“Estava aqui pensando. Olha que multidão. Ó que exército. Isso pra mim, olha, imagina só. Por mais que a gente veja milhares, não pode faltar ninguém na volta. A falta de um é a falta de milhões. Não pode faltar ninguém na volta hoje, certo? Ninguém. Nem vocês aí (aponta para um grupo trepado num telhado evidentemente frágil) que estão doidos pra não voltar. Esse malaco vai cair aí, é de plástico, tá vendo que é de plástico? É de plástico, aprendeu a voar, negrão (risos)? Já inventaram máquina de bater foto, os caras pegam a sua imagem aí, fazem assim (aponta para si próprio) e trazem pra cá. Agora, ensinar preto a voar, ninguém inventou. Nem nadar, né, moleque? Nem nadar nós num nada. Agora, correr e jogar bola, é foda. E fazer várias fitas também. Falar.

“Estive ontem de noite aqui, na madrugada. Eu sou da rua, certo? Eu tô nas ruas todo dia, muitas horas do dia. E eu vi muita covardia nas ruas do centro ontem. Muita covardia. Todo mundo fala da polícia, todo mundo fala do sistema, mas eu vi vários malandros ramelando ontem no centro, se roubando, se saqueando, se agredindo, se desrespeitando (aplausos intensos). Eu vi dez manos roubar um (tênis) Mizuno de um moleque.Todo mundo com a mesma cara, vestido parecido. Os malandrão roubou o Mizuno do moleque, que vai voltar pra quebrada dele mais pobre. Aquela porra daquele Mizuno custa 900 paus, 900, 900. Quem ganha 900 por mês aí levanta a mão (alguns levantam as mãos). Quem não ganha porra nenhuma levanta a mão (milhares de pessoas levantam as mãos). Dona Élida (?), o nosso povo tá dizendo que tá desempregado.

“É isso mesmo? 99% tão sem trabalhar aí, ou vocês tão zoando com a minha cara? Quem tá desempregado levanta a mão aí (novamente, milhares de pessoas levantam as mãos). Puta que pariu (risos)! Me arrependi de perguntar. Deu prisão essa noite, hein? Por que, irmãos? A gente tem que se capacitar, é isso? Temos que aprender um pouquinho mais, será? Será? Será que o mundão tá acelerado e o ensinamento que nós recebe é do século XIX, do começo do século XX? Tiradentes tinha um projeto de liberdade para o Brasil, mas não tinha projeto de liberdade para os pretos. A gente tem que se capacitar, morou? Hoje em dia, você pode procurar a sua informação, o que te interessa. Fazer o que não gosta também não tô podendo (risos), certo?

Às vezes temos que fazer o que não gostamos pra sobreviver. Agora, se tem uma coisa que eu gosto é de buscar informação, saber mais, saber, conhecer a mim e conhecer a nós e procurar um consenso. O que eu vi ontem no centro tá longe de ser uma evolução (aplausos). O rap precisa de gente de caráter(aplausos), não de malandragem (aplausos). Ê, massa! Os que eram do rap. Os que não eram, lamento, né, mano? OK, chapa?”.

Terminado o discurso, no palco, os (dezenas de) Racionais e seu porta-voz Mano Brown voltaram a cantar. Ao final do show, na plateia, milhares de pessoas rumavam em fila, calmamente, com destino a outros lugares, ou talvez sem destino.

É preciso desenhar a vida real, ou ela já vem desenhada?

 

*Análise originalmente publicada no site da Virada 2013