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Viena aprova o romance e a cultura da bicicleta

por The Observer — publicado 22/06/2013 11h24
Diante das ruas cada vez mais congestionadas, a capital austríaca adota a bicicleta com um sistema de aluguel, zonas exclusivas e moradias especiais
Guille Moraleda/Flickr
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Diante das ruas cada vez mais congestionadas, a capital austríaca adota a bicicleta com um sistema de aluguel, zonas exclusivas e moradias especiais

Por Tracy McVeigh

Na Praterstern, onde carros, ônibus e bondes convergem de várias ruas movimentadas em uma via que contorna a estação ferroviária central de Viena, um novo contador digital se ergue diante da roda gigante Riesenrad.

Tem mais ou menos o tamanho de um cartaz de parada de ônibus e, com um sensor no piso, registra as rodas de bicicletas que passam.

Com um casaco cinza amarrotado sobre o terno e capacete de ciclista cobrindo os cabelos grisalhos, Wolfgang Dvorak explica animadamente que o número 2.072 no mostrador marca o número de bicicletas que passaram por ali até então naquele dia. "Isso é ótimo, ótimo! A medição está dando visibilidade ao ciclismo, fazendo as pessoas perceberem", diz. "É muito importante, especialmente em um grande cruzamento urbano como este. Foi feito apenas há 14 dias, com a marcação desta ciclovia e a sinalização. Isso mostra à população que Viena está pedalando."

Dvorak, diretor da conferência anual Velo-city, que na semana passada levou à capital austríaca mais de mil especialistas em ciclismo e 330 oradores de todo o mundo, está fazendo um giro improvisado pelos novos pontos "amigos das bicicletas" na cidade, trafegando pelo "Citybike" -- um sistema de aluguel de bicicletas públicas disponível em cerca de cem estações automáticas espalhadas pela cidade.

Além disso, estão surgindo dezenas de empresas privadas de locação, inclusive muitas especializadas em e-bikes, modelos com motor elétrico para os mais cautelosos sobre seu nível de condicionamento físico ou capacidade, que podem ser abastecidas de graça em pontos por toda a capital.

Viena vive não apenas seu "Ano do Ciclismo", como também um ambicioso plano de cinco anos para fazer seus cidadãos trocarem os carros pelas "magrelas". Diante de um tráfego crescente, além de níveis de poluição nada invejáveis e o custo crescente dos combustíveis, a cidade decidiu aprender com capitais ciclísticas como Munique, Malmö, Copenhague e Amsterdã, que adotaram a cultura da bicicleta.

Viena é uma das 60 cidades que assinaram a Carta de Bruxelas, em que se comprometem a promover o ciclismo e definir metas claras de segurança viária e alcançar 15% de "participação modal" -- a porcentagem de trajetos feitos em bicicleta sobre o número total de trajetos feitos pela população. No Reino Unido, somente Bristol e Edimburgo, que realizou no último fim de semana seu primeiro festival de ciclismo, assinaram o documento, mas o interesse da Europa continental é enorme, incluindo muitos países do leste.

"Temos hoje em Viena cerca de 5% a 6% de participação modal", diz Dvorak. "Pretendemos duplicar esse número até 2015. Estamos trabalhando em muitas reformas de infraestrutura para facilitar o ciclismo urbano. A situação em geral é que temos uma população crescente e não temos mais espaço. Precisamos criar espaço e parar o congestionamento, a poluição aérea. Veja essas inundações terríveis que estão acontecendo; ignorar a mudança climática deixou de ser uma opção."

Os telejornais na Áustria e nas vizinhas Eslováquia, República Checa, Hungria e Alemanha estão cheios de imagens de casas e empresas inundadas, e os rios Danúbio e Elba subiram com níveis recordes de chuva. Não importa o que digam os meteorologistas e cientistas sobre as causas do clima instável, as pessoas discutem e se preocupam com a mudança climática.

Isto se reflete na construção de novas moradias. Sustentabilidade é um fator chave, e novos avanços são planejados não apenas sobre o uso da energia, mas também o tempo de trajeto até o trabalho e o acesso às redes de bicicletas.

Para as pessoas que vivem nas cidades, o espaço para estacionar uma bicicleta com segurança pode ser um grande obstáculo. Por isso, Viena acaba de concluir um projeto piloto chamado Bike City -- um bloco de cem apartamentos para pessoas de renda média, com amplos corredores e elevadores, suportes para bicicletas do lado de fora e depósitos para as mesmas em cada andar.

Michael Szeiler, um especialista austríaco em planejamento de tráfego, foi um dos primeiros moradores a se mudar. "Os aluguéis aqui são acessíveis porque os construtores economizaram ao não fazer estacionamentos -- fizeram apenas 50 vagas, em vez de uma por apartamento, como de hábito. As pessoas ainda têm carros", diz ele, "mas as pessoas que moram aqui fazem 25% de todos os trajetos de bicicleta, em oposição a 6% dos outros vienenses."

Szeiler tem trabalhado em projetos para ligar áreas residenciais por bicicleta. Em pontos determinados, faróis de trânsito equipados de detectores são programados para dar prioridade aos ciclistas, de modo que não precisem interromper seus trajetos. A cidade está investindo em infraestrutura, a segunda principal rua comercial se transforma em "calçadão", com zonas para bicicletas, e os políticos salientam o fato de que, por 4,5 milhões de euros, são apenas 5% do orçamento anual de vias públicas.

Maria Vassilakou é a vice-prefeita de Viena, responsável pelo planejamento urbano. "Viena é a cidade de mais rápido crescimento na Europa de fala alemã, e se continuarmos com a política de uma pessoa, um carro, nos tornaremos um grande engarrafamento", diz.

"Pedalar ajuda a reduzir a congestão e a criar espaço. Temos metas ambiciosas, especialmente em uma cidade onde você nunca sabe qual será o clima, mas é crucial para nossa sobrevivência duplicar o número de pessoas pedalando até 2015. É crucial fazer uma mudança para a mobilidade moderna, e todos os caminhos levam à bicicleta."

Ela admite que algumas medidas foram polêmicas -- a cidade pretende eliminar os espaços de estacionamento para dar lugar a ciclovias -- e também misturam pedestres e ciclistas nos mesmos espaços. "Essa é uma questão quente", diz Vassilakou, "mas em todas as cidades do mundo há conflito entre ciclistas e carros, e é preciso trabalhar duro para convencer as pessoas de que sua vida cotidiana vai melhorar. Temos de ser criativos, também precisamos incentivar as pessoas a se respeitarem mutuamente."

Mas os argumentos a favor do ciclismo convenceram muitos austríacos jovens, entre os quais as bicicletas se tornam uma tendência, e há um mercado florescente de bicicletas antigas e especiais. Também estão se tornando objetos de coleção, e Viena tem uma exposição, a Tour du Monde, que estreou no último fim de semana no Museu de Artes Aplicadas (MAK).

O curador do MAK, Thomas Geisler, escolheu 50 exemplares de uma coleção de mais de 250 bicicletas de propriedade do arquiteto Michael Embacher, que tem status de astro pop no país. As máquinas escolhidas são clássicos do design e típicas de sua época, diz Geisler. "Cada uma é um produto inteligente do tempo contemporâneo, seguindo todos os avanços materiais do século 21, a inovação e as técnicas. Todas têm uma história a contar. A bicicleta é uma máquina para percepção, que nos desacelera ao atravessar a cidade."

Bicicletas antigas estão aparecendo em um número crescente de lojas do ramo em Viena, diz Andrzej Felcak, do café ciclístico Radlager, mostrando um modelo de corrida de 20 anos atrás com uma etiqueta de 1.200 euros. Felcak é o presidente da Argus Radlobby, organização que faz campanha pelo ciclismo na Áustria, pedindo melhores vias e segurança.

"É uma coisa que está realmente crescendo, os colecionadores de bicicletas. Para alguns, talvez seja uma nostalgia da bicicleta que queriam quando crianças e não podiam pagar, como as antigas de corrida ou a Chopper.

"Para a comunidade de ciclistas de Viena, é maravilhoso ver que a tendência do ciclismo urbano se amplia, de modo que a bike está se tornando um método de transporte da corrente dominante. Não podemos solucionar nossos problemas com carros.

"Queremos promover agora o conceito de bicicletas de carga, como existem em Copenhague, para entregas de lojas e também para fazer vendas nas ruas. Assim as pessoas poderiam ter bancas e talvez vender coisas com as bicicletas. Há muito a ser feito no sentido das vidas movidas a pedal. Mas as pessoas precisam vê-las em ação para realmente entender a ideia.

"Se olharmos Pequim, uma cidade de 5,4 milhões onde 58% se movimentam de bicicleta, vemos que é algo que também podemos fazer."

Ele indicou pessoas mais velhas ou mesmo deficientes que têm bicicletas especiais, triciclos e cadeiras de roda atreladas. "Sua bicicleta se adaptaria não apenas a suas necessidades físicas, mas a sua personalidade. É o seu palco, sua passarela. Há lojas de bicicletas brotando em Viena como cogumelos depois da chuva. O preço é essencial, assim como a infraestrutura, mas aos poucos chegaremos lá."

No entanto, na Praterstern, onde o contador digital avança lentamente, os carros ainda predominam enquanto a chuva cai nas ruas elegantes.

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