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Vida longa ao poderoso pai

por Rosane Pavam publicado 11/12/2010 12h21, última modificação 11/12/2010 12h21
Novo filme de Francis Ford Coppola, Tetro, reencena conflitos familiares

Novo filme de Francis Ford Coppola reencena conflitos familiares

Francis Ford Coppola, o velho, sente saudades do jovem Coppola, aquele que sonhava o cinema com ardor. Seu filme Tetro, com estreia prevista neste dia 10, prova tal apelo onírico do cineasta norte-americano de 71 anos. É uma rara obra com roteiro originalmente escrito por ele, desde pelo menos A Conversação, em que um agente secreto tem a consciência torturada ao auscultar as conversas de um casal marcado para morrer.
Ao contrário daquele ensaio de novidades cinematográficas protagonizado por Gene Hackmann em 1974, Tetro não saboreia o mesmo suspense, é antes um memorial operístico e solene no qual toda a trajetória do diretor, seus pensamentos sobre a família, o amor fraternal, a lealdade a princípios, o destino trágico, a opressão paterna e o direito ao sonho vêm resumidamente envoltos em um palco imaginário, com música e encenação intensas.
Será um palco semelhante ao da ópera, mas, neste caso, portenha. Na capital argentina é mais barato filmar do que em todo o Brasil, segundo alardeou o diretor em passagem pelo País no fim de novembro, para divulgar seu filme. Em Buenos Aires, Coppola, que tem asseguradas as finanças pessoais após investir em uma vinícola há 18 anos, pôde filmar de modo barato, criativo e livre.
No colorido bairro La Boca, mostrado na sua beleza plena em um sacado preto e branco, um irmão Tetrocini busca o outro. O mais velho, o procurado, interpretado com submissa constância por Vincent Gallo, exilou-se em Buenos Aires porque sofria de genialidade ou, a depender do que considera sua esposa (Maribel Verdú), era incapaz de prová-la com sucesso. Tetro, o irmão mais velho, que nem mesmo gosta de ser chamado assim, rejeitará o mais novo, um jovem garçom de transatlântico a cargo do ator Alden Ehrenreich. Para o primogênito dos Tetrocini, a noção de família iguala-se à de dor, embora de início o espectador não saiba por quê.
Os tiques da genialidade de Tetro, o adulto, aparecem aos poucos, desde quando ele manquitola por Buenos Aires para apresentá-la ao irmão. Seu caminhar de muletas é filmado em certo momento por meio de uma excepcional câmera baixa que passeia não para mostrar o casario turístico de La Boca, mas, surpreendentemente, seu arvoredo. Enquanto pode, Coppola esmerilha-se na luz e nos perfeitos enquadramentos, mas evita o grande plano, apenas disposto a ele quando o cenário está acertado, gélido, filmado com a luz certa, como no teatro. Sua câmera, aliás, é firme mesmo ao vagar e sua fotografia não granula em desespero, ao contrário de algumas peças de arte cinematográfica nos tempos recentes.
É um filme interessante quando pensamos que o diretor não abdica de reverenciar o cinema dentro dele. Contudo, ao promover essa homenagem à arte, ele o faz com prudência, optando apenas pelo que é clássico, ou por tudo o que, apesar de novo, caminhou rumo ao cinemão, aquele antigo, de encher os olhos e os corações. Uma homenagem cômica é prestada, por exemplo, ao cineasta espanhol Pedro Almodóvar na figura implausível, pelo menos para um Brasil de poucas letras, de uma crítica literária alçada à celebridade, Alone. Notável que ela venha interpretada com óculos de estilista-padrão por Carmen Maura e use palavras de vilã.
Tetro digladiará e chutará portas, cadeiras, macas e rasgará papéis neste- f-ilme, algo a evocar a fúria de outro ator, um sobrinho do próprio Coppola, Nicolas Cage, este disposto a se mostrar irascível na maioria dos filmes. Gallo é um intérprete estável, sem paixão por nuances, melhor que Cage. Fisicamente parecido com outro ator desenhado para a tragédia, Willem Dafoe, e embora mais técnico que ele, não parece ter grande apetite para o desvio. Ele representa um homem em luta contra a imagem do pai e por aí fica. O pai, neste caso, é vivido por um veterano vilão do cinema, o austríaco Klaus Maria Brandauer, que estudou música seriamente e ficou famoso por sua atuação em filmes como Mephisto, de Hendrik Hoefgen, em 1981. O patriarca que ele interpreta, maestro Carlo Tetrocini, é o poderoso chefão erudito. O homem, além de eclipsar o filho, pôs para escanteio o sensível irmão Alfie, vivido em Tetro pelo mesmo ator.
Brandauer cita de modo sereno o Marlon Brando que foi Vito Corleone em O Poderoso Chefão. E Coppola quer mesmo que ele se pareça emocionalmente com o próprio pai, o músico Carmine, responsável por trilhas musicais como as de Chefão III e Apocalypse Now, na genialidade tanto quanto na tirania, no aspecto ímpio tanto quanto no tirocínio pela arte. Tetro representa, assim, o ato recente desse enfrentamento familiar que o artista sempre encena.
Coppola parece ainda necessitar provar que a aceitação da crítica corresponda a um valor artístico em seu trabalho. O diretor teve um irmão escritor eclipsado por seu sucesso, morto depois de assistir a este filme, de se revoltar com Francis e de se recusar a manter com ele uma conversa final. Coppola filma, aqui, para expor complicadas relações familiares, mas também para apregoar a necessidade clínica, ainda que duvidosa, de que o sucesso pode consolidar a saúde de alguém.
O filme traz o tempo presente em preto e branco e o das lembranças, em cores. Por vezes recupera o tom de cabaré, insinuado pela louca trupe de artistas e pelas encenações oníricas à moda do que o artista fizera no menosprezado título de sua filmografia O Fundo do Coração (1982). Em Tetro, Coppola busca sempre capturar a emotividade de quem o vê, mas não vai fundo nos diálogos, nem na tese geral, nem mesmo em um elemento de surpresa que o espectador eventualmente pode concluir antes do fim. E será esse mesmo espectador a olhar com impaciência o modo como Coppola explica e reexplica o mistério revelado, sem dar àquele que o presencia a chance de uma interpretação própria.