Cultura

Crônica do Menalton

Vida apertada

por Menalton Braff publicado 30/01/2015 20h16, última modificação 18/06/2015 16h38
Quando chegou ao Brasil, o Adamastor resolveu que o melhor de tudo era morar em apartamento. Um luxo para quem vivera ao relento
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Não me lembro por que um colega dos tempos do magistério me mandou uma história de apartamento. Quem sabe en passant eu tenha revelado a ele que coleciono histórias do gênero. E isso nem é verdade. Pois ele me mandou alguns fatos da vida de um conhecido seu que por sinal é uma história muito comum entre pessoas confinadas nas apertadas residências verticais. Não me lembro por que esse colega me mandou uma história de apartamento. Uma história com poucos lances, é verdade, que, entretanto, trouxe-me à lembrança uma situação vivida por nosso amigo comum, um sujeito vindo do sul da África, estatura avantajada, o Adamastor, para registrar aqui o nome que o Luís Vaz de Camões usou em seu poema sobre o povo português. Um poema com mitos pagãos e mitos cristãos, com histórias fantásticas e atos de heroísmo.

Quando chegou ao Brasil, o Adamastor resolveu que o melhor de tudo, para esquecer os séculos em que, amaldiçoado, ficara com as pernas dentro d’água, era morar em apartamento. Um luxo para quem vivera ao relento por muitos séculos.

Na primeira semana, descobriu que, no andar acima do seu, morava um casal jovem, pois acompanhava involuntariamente as manobras radicais de uma menina sobre patins e, de coração confrangido, ouvia seu choro depois de quedas estrondosas, que se fazia acompanhar dos gritos meio histéricos da mãe.

Já suportava há mais de um mês as rodinhas dos patins rodando cruelmente sobre seus nervos, quando se mudou para o andar inferior um casal sem filhos. Pelo menos isso, ele pensou. Não vai haver uma criança aprendendo a andar sobre patins. Já é uma vantagem. Estava começando a ensaiar-se na felicidade, mas arrependia-se do que pensara toda vez que tinha de sair correndo de cueca para evitar que o marido matasse a esposa, que acordava o prédio inteiro com seus pedidos de socorro. Era cruel abraçar o gajo pelas costas no corredor, no andar de baixo.

Ao lado de seu apartamento morava um casal de velhinhos de fala mansa e sorriso triste. Não tinham filhos, por certo, porque ninguém os visitava. Sua única alegria era o Totó, de olhar atrevido e barbicha branca. Não era um ser muito simpático.

Certa vez, quando não conseguia abrir a porta do apartamento com a chave do carro, sentiu que descia por sua perna até o sapato um líquido quente. Ao retirar a perna, o perro ainda rosnou feio para o Adamastor.

Hoje ele defende fanaticamente a casa térrea, alegando que adora jardinagem e intimidade.