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Crônica

Verão que chegou

por Eduarda Freitas — publicado 27/06/2011 12h39, última modificação 27/06/2011 12h39
Verão aos pedaços. Aos gomos. Às frutas. E verão que as do quintal de casa são sempre as melhores, não por serem da marca “nobre povo nação imortal”

Verão que chegou à porta.

Está calor. A velha mulher, sentada à porta de casa, afasta a saia dos joelhos. Lá dentro, os tachos borbulham o arroz com pedaços de salsicha, que a carne não está para os dentes.

Fogem os dentes com os sorrisos para destino incerto. Certo é que ao fim do mês, as contas são para pagar. Verão.

Está muito calor. A Inês tem as unhas dos pés pintados de um vermelho gasto.

Sonha com uma caravana e uma viagem pelo mundo. “Mas onde fica o mundo?”, pergunta com os olhos cor de chocolate agarrados ao meu pescoço.

E pinta cortinas às pintinhas nas janelas de papel que a caravana um dia vai ter. Que vou ter. Verão.

Está calor. A roupa agarra-se à pele e o rapaz ao papel na fila que dita o desemprego, que é gigante e dá a volta à esquina. E ao bilhar grande, que de tão grande passou a ser curva dura de rilhar.

Leiam as estatísticas. Verão que não estou a mentir.

São João pelas ruas do Porto. Alho porro nas cabeças que de nabos temos boa produção nacional. E ainda bem, já que agora tanto se aclama a necessidade de comprar o que é nosso, para fazer crescer a economia.

Trocos no bolso. Troco-os por um riso. Vale um sorriso?

E uma música que acaba de chegar. “Vazar” na internet, escrevem-me.

Chico dá-me bons dias. E eu respondo-lhe que – coincidência – aqui a cidade também acordou em contramão e que também não gosto de buzinas nem palavras altas e que um dia também recolhi um cão – cadela – que era Sebastiana por ser Bach inspiração. Tão bonita.

Calor. E o Chico que deixei esquecido em Cuba.

E os pés pequeninos na areia quente. E a avó a olhar as maminhas da menina que não vestiu o biquíni e a dizer “ao menos são tesinhas” e o céu virado ao contrario a fazer ondas de espuma nos pés pequeninos pousados na areia que era tão quente e agora está molhada.

Verão aos pedaços. Aos gomos. Às frutas. E verão que as do quintal de casa são sempre as melhores, não por serem da marca “nobre povo nação imortal”, mas porque crescem entre mimos e birras de gente que tem mimos e birras hora sim, hora sim, que somos todos nós, às vezes, quase sempre. Eu sou. Verão.

Calor, muito calor. E a minha vizinha pequenina de cima, de lado, sei lá de onde, que não pára de tocar o Hino da Alegria na flauta da escola. Ainda bem que agora, pelo menos, já toca uma frase seguida, mas isto ao principio não passava do ta ta ta inicial.

É a prova que quem insiste, nem sempre desiste.

E a Inês pequenina a perguntar-me “quando vamos na caravana conhecer o mundo e depois nunca nunca mais vou à escola?” e eu sem lhe saber responder, porque não tenho bem a certeza para que lado fica o mundo...

E a Alexandra que não é pequenina mas que me envia um e-mail a dizer que um dia quer ter um passarinho a cantar na goela. E ela que já tem...sem saber, um bando de pássaros a voar e a fazer o pino nos agudos que lhe saem do coração.

Está calor. A velha mulher encaixa o peito no abraço dele e dançam o tango de uma vida, que verão, durará só o tempo de hoje, mas não importa.

Amanhã já ninguém se lembra. Verão.