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Venda da Companhia das Letras desperta discurso protecionista

por Gabriel Bonis publicado 06/12/2011 17h45, última modificação 06/12/2011 17h45
Em meio ao crescimento de investimentos internacionais no mercado editorial do País, Liga Brasileira de Editoras pede controle do capital estrangeiro no setor
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Em meio ao crescimento de investimentos internacionais no mercado editorial do País, Liga Brasileira de Editoras pede controle do capital estrangeiro no setor. Foto:wilson Dias/ABr

A chegada da editora Penguin no mercado brasileiro com a compra de 45% da Companhia das Letras, por meio de sua empresa mãe, a Pearson, provocou reações diversas no setor editorial brasileiro. Anunciada na segunda-feira 5, a transação evidencia o aumento de investimentos estrangeiros no setor e desperta a defesa de ações mais protecionistas por parte da Liga Brasileira de Editoras (Libre), que reúne 99 editoras independentes.

Haroldo Ceravolo Sereza, presidente da entidade, defende o controle dos investimentos estrangeiros no setor. “Precisamos limitar o capital de fora do país nas empresas do setor, nos moldes do que acontece com os veículos da imprensa, nos quais não é permitido mais de 30% de capital estrangeiro."

Uma medida considerada de difícil aplicação, segundo Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL). “O País já conta com diversas empresas de grande porte com mais de 40% de participação de companhias do exterior", destaca. E completa: "Essa medida é protecionista demais, pois somos um mercado enorme e capaz de se defender quando necessário.”

A Companhia das Letras, que completou 25 anos em 2011, será comandada por uma holding com 55% das ações para as famílias Moreira Salles (18%) e Schwarcz (37%), atuais donos da empresa, que há dois anos mantém parceria para a publicação de títulos clássicos da Penguin no Brasil.

Em nota oficial divulgada nesta terça-feira 6, a Companhia aponta que não haverá mudanças nos princípios, no comando ou linha editorial da empresa. Mesmo com os mais de três mil títulos lançados e a posição forte no mercado, Sezera acredita que a Penguin exercerá forte influência nas decisões da empresa brasileira. “A porcentagem da compra possibilita maior participação nas decisões, embora isso não signifique uma imposição.”

O investimento da Penguin, fundada no Reino Unido em 1935, é a maior transação realizada pela editora para livros de língua não inglesa. De acordo com Sereza, a compra foi impulsionada por transformações relevantes no País nos últimos anos. “O nosso mercado de livros até pouco tempo parecia pequeno, mas com o avanço da classe média e o acesso ao ensino superior, as perspectivas mudaram."

Argumento também defendido por Pansa, que vê a chegada de editoras estrangeiras como um sinal de aumento da importância e do potencial do mercado brasileiro. “No último ano, o número de exemplares vendidos aumentou 8,3% e o preço da capa caiu 4,4%, seguindo uma trajetória de quatro anos em queda”, afirma. Por outro lado, destaca o presidente da Libre, a Europa está em depressão. "A região já atingiu um nível em que praticamente toda a população é público leitor.”

John Makinson, presidente da Penguin, diz em comunicado oficial, que o grupo está “empenhado em desenvolver oportunidades de crescimento nos principais mercados emergentes, Brasil, Índia e China”. A Penguin possui escritórios em 15 países e tem mais de cinco mil títulos impressos.

Um tamanho e estrutura que assustam Sereza, por gerar um “processo de colonização” do mercado, inundado por títulos sem grande interesse nacional e prejudicando a qualidade e debate intelectual. “Por isso, as pequenas e médias editoras perdem espaço nas livrarias, disputado com fervor por empresas com maior poderio econômico.”

Livros digitais

A Penguin é uma das editoras mais avançadas na plataforma digital, com conteúdo disponível no Amazon e outras empresas. Por isso, a parceria deve trazer um avanço na digitalização do conteúdo da Companhia das Letras, que lançou 122 títulos em formato digital.

Sereza acredita, porém, que a Penguin está interessada no mercado brasileiro de livros físicos, ainda em expansão. “Os livros digitais ainda são um mercado distante e a Penguin vai se beneficiar diretamente mais das vendas em papel.”

A Companhia das Letras também deve se beneficiar no setor de educacional, uma vez que a Pearson Education possui a divisão de sistemas de ensino do Sistema Educacional Brasileiro. Além disso, segundo o fundador da empresa, Luiz Schwarcz, em entrevista ao diário Folha de S.Paulo, a editora brasileira fatura até 30% de sua receita com vendas de livros para o governo.

Apesar da quantidade elevada deste tipo de transação, Sereza diz que o governo federal, por meio do Ministério da Educação, tem democratizado o processo de compra de livros. “Editoras pequenas e médias estão conseguindo contratos com o governo.”

Em relação às livrarias do país, Pansaaponta que há um aumento no número destes estabelecimentos, embora ainda não consigam enfrentar no mesmo patamar as grandes magazines do setor ou os preços baixos de sites de vendas. “O setor teve de olhar para os negócios de maneira diferente de dez anos atrás, quando tinham clientes do bairro. Essa clientela precisa ser reconquistada, mas acho que as empresas seguem para o caminho certo”.