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Vai vestir o que, Brasil brasileiro?

por Vivi Whiteman — publicado 05/04/2014 08h05, última modificação 05/04/2014 10h02
Arte com mate e pão de queijo? A SPFW e o angu com caroço do guarda-roupa nacional. Por Vivi Whiteman, colunista de moda de CartaCapital
FFW
Gisele Bündchen

Gisele Bündchen no desfile da Colcci, na SPFW

“Se você quer ser global, você tem que se tornar local”. Quem disse foi Li Edelkoort, holandesa, caçadora de tendências, influente, poderosíssima nas savanas e florestas da moda mundial. Li diz que tem “antenas” próprias, trabalha com todo um processo subjetivo, orgânico, intimista etc.

Aí, ela e sua equipe voltam dessa viagem ao fundo do ego, cruzam referências, acrescentam cifras e descobrem a fórmula do que eu e você vamos querer ter e comprar nos próximos dois anos. E vende as ideias todas pra empresas como Coca-Cola e L’Oreal.

Muito papo furado? Pode ser. Mas funciona. O escritório de Li é um dos mais procurados do mundo e ela já foi eleita diversas vezes uma das pessoas mais influentes do mercado de moda. Nesta semana, ela esteve em São Paulo, durante a SP Fashion Week, para lançar seu livro “Bloom Brasil” e dar algumas palestras.

Nas palestras, falou da volta do romantismo como tendência: das mocinhas recatadas aos góticos dançando com paredes e fazendo juras de amor platônico para o anjo de túmulo mais próximo.

E da briga entre uma nova “loucurinha estética” (aquela que seus amigos não-iniciados nos livros sagrados do estilo definem como “bem diferente” e sua mãe geralmente chama de marmota) e a onda do “blunt and boring” (algo tipo “bobo e chato”), que é o último grito nos Estados Unidos. Não entendeu? É assim: se todo mundo tá “diferente”, os modernos curtem ser normais. Aí compram roupas bem básicas, bem sem graça. O que é um jeito de ser diferente de novo, só que jurando que não liga para a moda. Haja paciência, não?

Enquanto isso, as marcas tentam transformar esse papo de maluco em cifrão. Pode ter loucura ou calmaria, se vender, tá valendo o samba. E não é qualquer coisa que vende, os caminhos do consumo são misteriosos, não importa que você tenha R$ 50 ou R$ 5.000 para gastar. Aí entram Li e outros “caçadores de tendências”.

“Bloom Brasil” é um livro para o olhar gringo. Ou seja, tanto para os investidores e consumidores de fora, que estão aos trancos e barrancos no processo de colonização do mercado brasileiro, quanto para os estilistas locais que querem apresentar seus produtos para o mundo. Não é só uma questão de exportar: a ideia de que o mundo deseja o “estilo” brasileiro é um dos métodos de conquistar a cliente local.

Mas que raio de estilo é esse? E que cliente, meu Senhor do Bonfim, é essa? Muitos e muitas.

Vejamos o que rolou de mais relevante nesse sentido na SPFW. Começando por Ronaldo Fraga, recentemente eleito um dos sete estilistas mais inovadores do mundo pelo Design Museum, de Londres. Aliás, ele é um dos únicos designers que aparece no livro de Li. A maioria das imagens de “Bloom Brasil” é de frutas, flores, bichos, sementes, terra... Casinhas humildemente estilosas, design inocente, textos brejeiros e, ao mesmo tempo, um arzinho sofisticado-exótico. Tipo uma caipirinha de frutas gourmet.

A coleção que Fraga mostrou na SPFW foi inspirada no pintor Candido Portinari. Ronaldo já tinha evocado os espíritos de Drummond e Guimarães Rosa em verões e invernos passados. Portinari teria sido um desdobramento desse caminho de resgate cultural – mas tudo faz mais sentido com o fato de que a obra de Portinari ganha uma exposição em maio próximo, no Grand Palais, em Paris.

No material de apoio distribuído aos convidados, Ronaldo diz à sua maneira que a coleção e Portinari, com seus camponeses, trabalhadores e gente simples, são um tipo de antídoto contra a elite-ostentação. “No Brasil novo-rico, a obra de Portinari ainda grita e seu legado se faz caro em tempos desmemoriados e apáticos”, escreveu o designer.

Nessa luta do Brasil Adriana Varejão contra os discípulos do movimento Romero Britto (eles são muitos e se queixam de preconceito, com alguma razão), a Osklen também reforçou o primeiro time.

Não houve desfile, mas uma apresentação para poucos, feita no showroom da marca pelo próprio Oskar Metsavaht, diretor de criação e dono da grife carioca.

O rei de Ipanema, desta vez, foi parar em Inhotim (MG), o museu-jardim-meca da peregrinação artística no Brasil. Oskar faz parte do conselho consultivo do museu e estacionou por lá durante meses para um “trabalho de imersão” e inspiração, tanto nas obras quanto na paisagem. O processo dele e de sua equipe foi filmado, fotografado e vai virar uma exposição que estreia em São Paulo em agosto.

De lá, saíram também a coleção mostrada na SPFW e uma outra, diferente, que será apresentada na Semana de Moda de Nova York em setembro. No calendário do estilista, está ainda um desfile no próximo Fashion Rio, só de moda praia. Conexão São Paulo-Inhotim-Rio-NY. Local e global, como manda a cartilha do momento.

É praia, é pedra, é o fim do caminho – pelo menos daquele antigo dos circuitos fechados. Em termos de marketing, a Osklen está conectada às novas estratégias mundiais de divulgação. Prada, Chanel, Gucci e tantas outras, estão investindo pesado no poder de associação de moda e arte.

A “moda não está na moda, a arte está na moda”, disse Oskar. Ou seja, a rica sofisticada não quer só uma roupa, quer uma “peça especial”, um “trabalho”, quem sabe um “díptico” ou um painel orgânico de vestir... Uma coisa “intelectual de Manhattan” (sabe lá Deus o que isso significa, mas aqui vale mais a imagem do que a substância), não “rica de Miami”.

Mas e as ricas de Miami? E as ricas de Moema? Sim, porque o mercado precisa e muito delas. Também tem pra elas, é claro, no tabuleiro da SPFW. Simplificado, mas tem. E mesmo elas estão mais discretas, menos peruas, nada periguetes, mais “chiques”. É um verão sem shorts, de saias e vestidos compridos e fechados.

Basta ver a Forum, com sua coleção inspirada no Pantanal, zero Juma Marruá, total flores e frutas exóticas colocadas no vasinho e na fruteira. E a Colcci, que botou a musa Gisele Bündchen de saia comprida, mostrando só um teco de abdome. E a C&A, que lançou coleção minimal, discretíssima, assinada pelo brasilero Francisco Costa, da Calvin Klein.

Até Valesca Popozuda apareceu toda básica (para seus próprios padrões). Calça justa, sim, mas preta. Regata branca, jaqueta bege. Menos malhadona, com pouco make. Encontrou Gisele a tempo de mandarem um beijinho no ombro duplo. Duas musas locais, goste você ou não. Os fashionistas a-do-ram as duas. E também fizeram fila para tirar fotos com outro muso controverso do momento: o príncipe do funk ostentação, McGuimê, que também passou pelo evento.

Teve até desfile com trilha de É o Tchan.

O que não quer dizer que nesse trajeto Varejão-Valesca não haja espaço para a tradição, os quatrocentões, os donos de terras, o Brasil brasileiro da Casa Grande. Para as novas sinhazinhas de mansão, a SPFW tem os belos e sofisticados modelos da estilista Paula Raia.

Camadas e camadas de ráfia, sisal, algodão. Uma imagem de mulher que cuida dos filhos e trança palha num cenário bucólico (no caso, a residência da designer, no Jardim Europa, que tem um lindíssimo gramado). As informações de inspiração citam “matriarcas de tribos africanas” e guerreiras que “buscam barro na beira do rio”. Uma sinhá, assim, bem de raiz. Nem Manhattan nem Miami, meio "verde" de Washington com pitadas de Mississippi.

E existe ainda um outro bloco muito relevante.Trata-se dos estilistas que abrem mão de referências facilmente reconhecidas como "brasileiras". É o caso de Alexandre Herchcovitch e Reinaldo Lourenço. Ironicamente, o que eles fazem é brasileiríssimo, no sentido de ser uma versão local, embora mais "neutra", do chamado luxo internacional.

De um lado da moeda, o brasileiro pintado com tintas internacionais. De outro, o internacional pintado com tintas brasileiras.

Achou complicado? Pois é. A moda, seu imaginário multicolorido da carochinha, seus namoros superficiais com diversas esferas do conhecimento, sua tecnologia, seu sistema de negócios e sedução etc Tudo isso vai muito além dos "looks do dia" e dos manuais simplificados de “tá usando”. E haja aquarela pra desenhar, vender e vestir tanto Brasil.

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