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Uma história brasileira

por Moacyr Scliar — publicado 28/02/2011 16h16, última modificação 28/02/2011 17h28
Para o escritor Moacyr Scliar, falecido no último domingo 27, o best seller Cazuza, de Viriato Corrêa, é um livro de histórias comoventes que mostram personagens típicos do Brasil

O escritor gaúcho Moacyr Scliar, falecido na madrugada do último domingo 27, colaborou por diversas vezes nas revistas Carta na Escola e Carta Fundamental, ambas editadas por CartaCapital. Abaixo, "Uma história brasileira", em que Scliar fala de sua admiração pela obra Cazuza, de Viriato Corrêa, que marcou sua juventude.

Uma história brasileira

Cazuza, o best seller do maranhense Viriato Corrêa, é um livro de histórias comoventes, e reais, que mostram personagens típicos do Brasil

Entre os livros juvenis que os meninos de minha geração liam está um verdadeiro clássico da ficção brasileira: Cazuza, do maranhense Viriato Corrêa. É um livro que teve incontáveis edições. Já não tenho o exemplar original, mas a cópia que comprei em 1982, da Companhia Editora Nacional, é da trigésima edição. Um best seller, portanto. O que é explicável, em primeiro lugar pelo perfil do autor. Manuel Viriato Corrêa Baima do Lago Filho (Pirapemas, Maranhão, 1884 – Rio de Janeiro, 1967) foi jornalista, contista, romancista, dramaturgo, autor de crônicas históricas e de livros infanto-juvenis e político. Sabia, portanto, como atingir o público. E tinha um profundo conhecimento da realidade brasileira. Fez seus primeiros estudos em São Luís do Maranhão, começou o curso de Direito no Recife, mas, como era habitual então, acabou por se radicar no Rio de Janeiro, para onde foi a pretexto de se formar advogado. O que não aconteceu. Logo aderiu à intelectualidade boêmia da época e começou a trabalhar em jornalismo, no Correio da Manhã, no Jornal do Brasil, em O Malho e também na famosa O Tico-Tico, publicação infantil.

Antes de Cazuza, Viriato publicou Minaretes (1903), um livro de contos, História do Brasil para Crianças e As Belas Histórias da História do Brasil. Mas sucesso mesmo ele obteve com Cazuza, lançado em 1938, ano em que entrou na Academia Brasileira de Letras, e inspirado em cenas de sua infância em São Luís do Maranhão. Cazuza refletia a clara influência de um livro que Viriato Corrêa tinha lido com entusiasmo e que foi sucesso na Itália (onde até hoje é leitura recomendada nas escolas) e no mundo inteiro: Coração (Cuore), de Edmondo De Amicis, cujo centenário de falecimento, como o de Machado de Assis, ocorre neste ano. Nascido em 1846, De Amicis cursou a Academia Militar de Modena, tornou-se oficial do Exército italiano e participou em algumas batalhas. A Unificação da Itália estava em curso, então, e o espírito patriótico encontrava-se no auge, o que aparece no romance, redigido sob a forma de diário do garoto (10 anos) Enrico Bottini e refletindo seu relacionamento com os pais, com os colegas de escola, com os professores. Cuore obteve uma repercussão comparável à de Pinóquio, ou às obras de Dickens e de Mark Twain.

Cazuza também consta de uma série de narrativas, que nos vão apresentando vários personagens típicos do interior do Brasil: o próprio Cazuza, o Pata-Choca, Dona Janoca, a diretora da escola, o velho Mirigido, Jorge Carreiro. E aí se sucedem as lições de moral. Estimulado pelo amigo Ninico da Totonha, Cazuza resolve caçar passarinhos. Perseguido por estes, tropeça num cipó, cai sobre uma casa de marimbondos, é picado e fica cheio de calombos. Resultado: passa duas semanas de cama, gemendo. E o que diz a mãe, a quem ele desobedecera? “Foste castigado por duas faltas. Uma a maldade de querer tolher a liberdade alheia; outra a desobediência aos meus conselhos. Deus não gosta dos meninos maus e desobedientes.”

Ranço moralista à parte, o livro é encantador. Há histórias comoventes, e reais, como a do líder abolicionista Luís Gama, mulato, filho de uma negra quitandeira e de um fidalgo português, jogador contumaz. Na ânsia de obter dinheiro para o jogo, o pai acaba vendendo o próprio filho como escravo. Mas Luís Gama, menino corajoso, inteligente, foge da casa onde é escravo, entra no Exército, educa-se, pratica advocacia e torna-se um grande abolicionista. É este o exemplo que o professor de Cazuza cita para o relapso aluno Veloso (leia abaixo).

Veloso e a história de Luís Gama

“O professor calou-se por um instante. Voltou-se depois para o Veloso e disse:

– Sua pobreza e suas dificuldades, ao lado da pobreza e das dificuldades de Luís Gama, são gotas d’água comparadas com o mar. A sorte algemou Luís Gama de todas as maneiras. Deu-lhe aquele pai infame. Deu-lhe a extrema pobreza. Deu-lhe até a desgraça da escravidão. E no entanto Luís Gama quebrou essas algemas, estudou, e instruiu-se. Por quê? Porque teve força de vontade.

E, de dedo apontado para o Veloso:

– Você não estuda porque não quer!”

Cazuza, Cia. Editora Nacional, pág. 195