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Tributo

Uma Crônica Para Lou

por Eduardo Graça — publicado 27/10/2013 21h55, última modificação 28/10/2013 09h48
Correspondente da CartaCapital em Nova York, Eduardo Graça lembra do poeta da América desesperada e do lado mais sombrio da capital cultural do planeta
Lou, Bowie, Iggy

Lou Reed com David Bowie e Iggy Pop, em fotografia tirada por Mick Rock em 1972

De Nova York

 

Intervalo da épica apresentação de Leonard Cohen no fim de março no Radio City Music Hall. Por uma série de coincidências felizes, estava sentado à beira do palco, na tal área vip. No intervalo do espetáculo de três horas e alguns caraminguás, passei correndo pelo banheiro a fim de limpar os óculos, devidamente embaçados depois de uma seqüência maldosa de clássicos do bardo canadense – se a memória não me trai, “Suzanne”, “Hallelujah” e “Take tarhis Waltz” – que haviam me derrubado de jeito. A cabeça ainda latejava com um dos muitos monólogos oferecidos por Cohen a seus devotos naquela noite, uma digressão irônica sobre completar 80 anos em 2014 ainda buscando, sem sucesso, alguma leveza d’alma, quando percebo meu vizinho de pia acompanhando atentamente os movimentos que eu fazia levando o sabonete às lentes e passando um pedaço de papel-toalha para secá-las. Era Lou Reed.

Março reúne os 31 dias mais insuportáveis – seguido pelos 30 de novembro, quando o horário de inverno entra em vigor – no calendário muito particular de quem vive em Nova York. É o sexto e derradeiro mês de frio, ninguém mais agüenta o vento congelante das ilhas de Manhattan e Long Island, os casacos parecem pesar mais e devo ter soltado – não, deixei escapar sim, e em voz alta - um comentário ranzinza, em bom português, ao observar, pela enésima vez, a americanada sair do sanitário sem lavar as mãos. Pois aquele que o “New York Times” classificou, em anúncio, hoje, pouco depois das três da tarde, horário local, de sua morte, aos 71 anos, como “pioneiro do rock’n’roll, cantor popular, compositor e escritor”, deixou escapar algo que identifiquei como uma curta gargalhada, antes de sentenciar um “brasileiros são mesmo muito limpos”. Ainda teve tempo de me mostrar sua armação, as lentes cristalinas, antes de voltar num vapt-vupt para sua cadeira. Obviamente à frente da minha.

Direto, simples, objetivo, nova-yorkino por excelência, nascido no Brooklyn no meio da Segunda Guerra Mundial, um dos raros artistas de sucesso no universo da cultura popular local que de fato viveu nas ruas da cidade, freqüentador altivo de seus becos mais assustadores, Reed não precisaria ter feito nada além de “The Velvet Underground And Nico”, o “disco da banana” de Andy Warhol, para ser ungido como um dos novos patriarcas do rock. O trabalho de 1967 é considerado o álbum de rock de influência mais duradoura na história da música americana. “É difícil imaginar um outro disco que tenha alterado tão dramaticamente o vocabulário do rock, que tenha modificado de forma tão radical seus parâmetros”, escreve Alexis Petridis no “Guardian” que chega às bancas em poucas horas na Grã-Bretanha.

Não existiriam o glam rock, o punk, a new wave e o indie rock sem o Velvet. “Se o disco só vendeu 30 mil cópias em seus primeiros cinco anos, todos os 30 mil que o compraram certamente o escutaram e criaram, cada um, uma banda”, disse Brian Eno, em 1982, em entrevista-reflexão sobre a importância daquela coleção de onze canções. E o Velvet, por sua vez, deve muito de sua crosta intelectual à paixão – e profundo conhecimento – de Reed pelo jazz de vanguarda, a música experimental, a arte contemporânea e, acima de tudo, a poesia.

Em sua introdução, a banda oferecia uma série impressionante de petardos, já reveladores do cronista singularíssimo da vida mundana naquela que se afirmava de vez como nova capital cultural do planeta:  “Heroin”, “I’m Waiting for the Man”, “Venus in Furs”, “All Tomorrow Parties”. Também escancarava seu lado desesperadamente romântico, seja em “Sunday Morning”, parceria com John Cale, ou na belíssima “I’ll Be Your Mirror”, dos versos “when you think the night has seen your mind/that inside you’re twisted and unkind/let me stand to show that you are blind/please put down your hands/’cause I see you/I’ll be your mirror, reflect what you are”. (em livre tradução: “quando você pensar que a noite invadiu sua mente/que por dentro tudo parece revirado e indelicado/deixe-me mostrar que você está cega/por favor, descanse suas mãos/porque eu a vejo de fato/eu serei o seu espelho/refletindo o que você é”). As duas cantadas por Nico.

Com o fim do grupo, Reed foi resgatado das ruas de Nova York por David Bowie e Mick Ronson, responsáveis diretos por “Transformer”, uma obra-prima, tão síntese do rock dos anos 70 quanto o Velvet o fora na década passada. “Vicious”, “Andy’s Chest”, “Perfect Day”, “Walk on the Wild Side”, “Satellite of Love”, “I’m so Free”, uma maravilha pop atrás da outra, com acenos do dôo-wop à broadway e o vaudeville nova-yorkinos, e uma sucessão de personagens heroicamente vadios, drag queens, proxenetas, michês, fofoqueiras da Park Avenue. Em seguida vieram “Berlin”, “Rock’n’roll Animal”, a loucura experimental de “Metal Machine Music”, as declarações de amor à cidade tão imunda quanto querida em “Coney Island Baby” e “New York”, o reencontro com Cale na linda homenagem a Warhol “Songs for Drella”, as reedições ao vivo, os trabalhos que mesclavam artes plásticas, outra de suas obsessões, com a mulher Laurie Anderson na Brooklyn Academy of Music (BAM), a reunião de escritos em livro de luxo, o livro de fotos “Transformer”, das quais as imagens que ilustram este texto foram extraídas, e o ato derradeiro, uma improvável parceria com o Metallica, no disco “Lulu”, lançado há dois anos.

Lou Reed tinha então 69 anos. Fisicamente, parecia ter mais de um século. As escolhas artísticas, no entanto, mostravam que a cabeça continuava a mil. Um dos poucos críticos brasileiros a se empolgar com o disco, o gigante Jamari França escreveu n’O GLOBO, depois de ouvir o disco duplo por sete vezes, que “quando acabei o CD1 bateu uma angústia, pelos temas fortes e pela narrativa dramática de Lou, com reforço, aqui e ali, de um não menos dramático James Hetfield, e o som denso, lúgubre e pesado da banda. Uma perfeita integração entre dois mundos do roquenrol. Conclusão: Uma grande obra que vai resistir ao tempo”. Hoje, em sua página no Facebook, ele definiu de modo belo e certeiro a trajetória do artista: “Lou Reed foi o menestrel da América subterrânea, dos refratários ao sonho americano, dos que se escondem à noite em ambientes escuros, das sombras que vagam em becos e ruelas, dos que afogam nas drogas o desespero de uma vida sem sentido, dos que não sonham, nada esperam da vida e nem se importam me deixá-la. Dos que vivem o aqui e agora, dos que trazem ‘no future’ tatuado na alma”.

Ao deixar o SoHo para trás em direção ao norte do Brooklyn depois de uma manhã dominical de trabalho, atravesso, como de hábito, o velho Lower East Side, imortalizado por Reed, seus limites indo do Bowery à “Cidade Alfabeto”, as Avenidas A, B e C, já no East Village, outrora o quinhão de fato selvagem da cidade. Penso no encontro de raspão no banheiro do Radio City no início do ano. Lamento não ter deixado a irritação com o inverno de lado e ter investido mais em minha porção fã. Mas penso na fama de emburrado e nas entrevistas raivosas do roqueiro, da famosa ziquizira com Lester Bangs em 1975, dos ataques de mau-humor com colegas de várias nacionalidades. Tento lembrar em vão do único show dele que vi, no rebatizado Metropolitan, na zona oeste do Rio, lá pelos idos de 1996. Até que, na esquina de East Houston com Suffolk, a cinco quadras da ponte de Williamsburg, um negro de meia-idade, barba por fazer, desafiando a tarde fria de outono com um amontoado de velhos trapos, grita, sem preâmbulo ou conclusão: “Lou Reeeeeed!”. E parte em direção aos projetos habitacionais à beira do East River. Não parecia triste nem desafiador, mas decidido a registrar a homenagem da rua, dos bares, da gente dos prédios encardidos em tom marrom de New York City a Lou Reed.

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