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Cultura

Crônica do Menalton

Uma brisa gentil

por Menalton Braff publicado 01/05/2015 06h28
Algumas coisas simplesmente não podem ser apressadas
Jake Keup / Wikimedia Commons

Estávamos a mangueira e eu dando água às plantas do jardim quando uma brisa um tanto gentil passou por nós. Isso me aconteceu há alguns anos. Passou também pelos ciprestes, e os quatro sacudiram-se saudando a brisa. Então observei os ciprestes e aborrecido pensei que estavam mais ou menos com a mesma altura da semana anterior. O mais alto, de dois metros, foi o que mais se inclinou na saudação. Hoje os quatro já furam às nuvens.

Minha pressa, naquela época, lembrou-me de uma história contada pelo Adamastor. Um amigo do gigante, texano daqueles de chapéu, foi visitar a Inglaterra. Não muito longe de Londres conheceu um castelo e ficou deslumbrado. O palácio, impondo-se aos prédios menores, o parque, com seus gramados e jardins imensos, era tudo perfeito.

De volta ao Texas, depois de ter conversado longamente com o dono do castelo e obtido todas as informações de que precisava, contratou um arquiteto e um agrônomo e mandou os dois para a Europa. Copiassem tudo, até os mínimos detalhes.

Suas ordens foram cumpridas, e o texano teve reproduzido nos EUA o castelo que tinha conhecido no velho mundo.

Passado um ano, o texano ligou para o dono do castelo, um aristocrata britânico, queixando-se de que não ficara tudo igual. O europeu perguntou se ele seguira os projetos do arquiteto e ele respondeu que sim, os prédios estavam praticamente iguais, e até mais novos. A grama, lamentou-se, a grama é que não tem jeito. Seu anfitrião do ano anterior perguntou se mandara fazer tudo conforme fora recomendado. Sim, tudo, sem esquecer nada. Plantou a grama, como eu disse?, perguntou o britânico. Sim, plantei. E era verdade, tinha plantado as sementes que o agrônomo trouxera do castelo para que a grama saísse igual.  

Pois bem, respondeu-lhe o amigo, agora adube nos períodos corretos e irrigue todos os dias durante duzentos anos, e seu gramado vai ficar igualzinho ao meu.

Não sei, não, mas fico com a impressão de que aquele texano do Adamastor nasceu foi por aqui. Somos um povo apressado, como se tivéssemos de fazer fortuna rapidamente para voltar à terrinha com os bolsos cheios de ouro. Salve mestre Sérgio Buarque de Hollanda! Não temos tempo para esperar!

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