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Um sonho de triunfo

por Rosane Pavam publicado 29/12/2011 06h54, última modificação 29/12/2011 06h54
Exposição e livro encerram importante trilogia e recuperam o legado documental do artista suíço Guilherme Gaensly para São Paulo

São paulo, 1892. Em dia incerto, é hora de lavar a carroça no Rio Tamanduateí, enquanto as crianças brincam e por ali se refrescam. Ao fundo, diante do mercado que anos depois dará lugar à Rua 25 de Março, observam-se mais carroças e mais conversas. Os lavadores da carruagem têm atrás de si o imponente Solar da Marquesa e sua escadaria lateral, embora, de onde estejam, só possam enxergar a torre da Igreja do Carmo. Nesse momento ainda é possível entender São Paulo como um bucólico e entediante centro urbano brasileiro. Mas os imigrantes já começam a chegar. Graças a eles, os 47 mil moradores de 1886 passam a 130 mil em 1893. No último ano do século XIX, são 240 mil a habitar a cidade à qual acorrem levas de europeus ansiosos por sobreviver do trabalho antes designado aos escravos negros.

Houve graça naquele incipiente aglomerado urbano. E, por conta de sua beleza, inicialmente o suíço Guilherme Gaensly (1843-1928) decidiu fotografá-lo à moda de um pintor de paisagens, de um Benedito Calixto, talvez. Aquela sua primeira foto diante do rio que, anos depois, abrigaria enchentes e caos, está incluída no livro Guilherme Gaensly (Cosacnaify, 218 págs., R$ 62) e na exposição Guilherme Gaensly, Fotógrafo Cosmopolita. Em cartaz até 25 de março na paulistana Casa da Imagem, situada ao lado do mesmo Solar da Marquesa presente na foto de 1892, a exposição traz 44 das -fotografias incluídas no livro, além de três negativos de vidro assinados e seis retratos em cujos versos há endereços e datas.

Gaensly é um caso especial na história da fotografia brasileira. Deixou a obra mais significativa do ponto de vista da preservação da memória urbana, arquitetônica e cultural da capital paulista, segundo afirma o historiador Boris Kossoy no ensaio de introdução ao livro, A São Paulo Fotogênica de Guilherme Gaensly. Embora cioso em enaltecer o próprio trabalho, o suíço nascido no cantão de Thurgau não legou à história a imagem do próprio rosto, conforme lembra o arquiteto Hugo Segawa em outro texto a integrar o volume, Um Perfeito Fotógrafo do Século 19. Ironicamente, um dos maiores e mais bem organizados artistas de imagem do período teve perdido o retrato que o faria resistente na memória brasileira, ao contrário do que ocorrera com seu antecessor, Militão de Azevedo, de quem se conhecem face e vestimentas.

Os pais de Gaensly, Jacob e Barbara, trouxeram-no criança ao Brasil. Sua atividade profissional teve início em Salvador, onde Guilherme (Wilhelm, na origem) estabeleceu-se em fins da década de 1860, ali permanecendo até os primeiros anos de 1890. Nessa década, transferiu-se para São Paulo, que muitas oportunidades prometia aos empreendedores durante a cultura do café e a ascensão industrial. Em Salvador e na capital paulista, onde trabalhou até a proximidade de sua morte, ocorrida por pneumonia aos 85 anos, ele dedicou-se ao retrato de -estúdio, à do-cumentação de edifícios e logradouros urbanos, ao acompanhamento de obras públicas e às paisagens rurais e da natureza.

Em 1876, Gaensly informava que seu estabelecimento na Bahia, o Photographia do Commercio, era montado “com muito gosto”. Ele se gabava de ter “a maior coleção de vistas da Bahia”. Em 1883, divulgava poder reproduzir “para qualquer tamanho” originais, mesmo que estivessem “bastante estragados”. Em 1881, participou da Exposição de História do Brasil, promovida pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, apresentando 28 reproduções fotográficas de pinturas a óleo de personagens públicos, políticos e religiosos, como o Padre Antônio Vieira.

Em 1894 e 1895, o livro São Paulo, de Gustav Köenigswald, também presente na exposição da Casa da Imagem, incluiu as primeiras séries de vistas da capital paulista produzidas pelo fotógrafo. Na capital, seu estúdio, intitulado Gaensly & Lindemann, situava-se à Rua 15 de Novembro, incluída no chamado Triângulo Central, do qual participavam as ruas São Bento e Direita. A região, onde ficavam os mais ricos estabelecimentos comerciais da cidade, convidava a retratos constantes, não raro transformados pelo fotógrafo em postais, cuidadosamente colecionados pelo organizador desse volume, o pesquisador Rubens Fernandes Junior.

“As transformações ocorridas na capital desde os primeiros anos do novo -século foram acompanhadas de perto pela câmera de Gaensly”, lembra Boris Kossoy em seu ensaio. As reformas e a demolição do velho casario, que cedia lugar às novas edificações, e as obras de implantação dos trilhos para a introdução dos bondes elétricos receberam sua atenção, assim como as mansões dos Campos Elíseos, Higienópolis e a Paulista, durante o sofisticado surgimento da avenida durante a belle époque paulistana. Gaensly também documentou sistematicamente as fazendas do interior, suas habitações, o plantio do café, colheita, beneficiamento, ensacamento e transporte pela estrada de ferro até o Porto de Santos, para exportação. Documentou a cidade para a companhia Light por 20 anos e realizou uma farta coleção de vistas pela capital e litoral do estado. “A imagem que se tem da São Paulo desse período é formada pelas fotografias de Gaensly, sempre bem cuidadas, tanto técnica como esteticamente”, ressalta Kossoy.

Não que suas fotografias tivessem outro objetivo além do puramente promocional. O que ele propagandeava então, financiado por robusta clientela, era uma cidade afinada ao concerto financeiro mundial. E, para demonstrar a existência dessa concentração de dinheiro a gerar pujança arquitetônica, eliminava os sinais de pobreza na capital paulista. Limpava de suas imagens a sujeira das ruas, os homens desocupados e as carroças puxadas por bois. E olhava a cidade principalmente a partir de cima, situado, com seu pesado equipamento, no alto dos prédios de localização cuidadosamente escolhida. Fotografava enxergando linhas, geometrias e pontos de fuga, como se desenhasse um quadro de composição naturalista.

E parece não ser tão estranho assim que tivesse deixado de fotografar as inúmeras igrejas paulistanas cujos sinos dobravam para marcar as horas do dia e dos eventos. Fernandes Junior, no ensaio A Cidade Multiplicada, especula que a exclusão dessas construções se ligava às crenças religiosas do fotógrafo, um protestante. Mas é possível que as igrejas tenham saído do foco de Gaensly apenas por simbolizarem a vida rural, indesejável para as elites econômicas, ocupadas em construir uma imagem europeizante e moderna da cidade. Pelo contrário, Militão de Azevedo (1837-1905), que registrara o marco inicial das mudanças paulistanas, não hesitou em fotografá-las, conforme detectou a pesquisadora Iris Morais de Araújo no ensaio Militão Augusto de Azevedo – Fotografia, história e antropologia (Editora Alameda).

Não era bonito ser caipira, o bonito era ser moderno. E a modernidade se traduzia pela ideia de movimento, algo que a técnica fotográfica do período registrava penosamente. Apesar disso, nas fotos de Guilherme Gaensly viam-se os homens pregados aos bondes e os pedestres, a passear em plena via urbana, perigosamente situados ao lado dos trilhos por onde corriam os mais modernos veículos elétricos. As poses nas ruas eram em grande parte espontâneas e os personagens, com os olhos voltados para a câmera, agiam para testemunhar a presença do fotógrafo.

“Embora fotografasse a cidade segundo uma composição do século XIX, o artista já usava filmes rápidos para realizar flagrantes”, diz Rubens Fernandes Junior. Com o volume Guilherme Gaensly, o pesquisador finaliza sua trilogia sobre a fotografia documental paulistana, iniciada em 2007 com B.J. Duarte, Caçador de Imagens, que contém instantâneos pelo artista a partir dos anos 30. O segundo livro, intitulado Aurélio Becherini, editado há dois anos, mostra São Paulo entre as décadas 10 e 20 do século XX. Gaensly ficou por último porque suas imagens, de cunho fortemente autoral, eram tidas por conhecidas, segundo o curador.

Fernandes Junior, que com seus livros e pesquisas contribui para a escrita de uma história fotográfica brasileira, planeja lançar no ano que vem, pela mesma Cosacnaify, um álbum de memória coletiva, no qual estarão presentes as imagens produzidas por fotógrafos sem renome de São Paulo e do Rio. Será um caminho para restabelecer a existência de uma atividade maltratada no passado, hoje paulatinamente reconduzida à condição de arte.