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Cultura

Crônica do Menalton

Um pobre diabo

por Menalton Braff publicado 27/03/2015 05h11
Não tenho emergências para usar o celular nem importância para receber ligações
Rafael Neddermeyer / Fotos Públicas

Já quase não me lembro de meu primeiro celular. Faz muito tempo. Ele chegou numa onda avassaladora, conquistando sobretudo os exibicionistas de todo dia, que se levantavam para que ninguém deixasse de os ver com o aparelho na orelha. Lembro-me de ter resistido à primeira onda, invicto. Não me deixo levar por modismos. Uma das cunhadas, algum tempo depois, chegou contando que, na estrada, quebrou uma roda do carro. Ela ainda não havia aderido à moda, mas um motorista anônimo parou e lhe emprestou seu aparelho. Meia hora mais tarde seu marido chegou com um borracheiro, um macaco e uma roda nova com pneu novo. O que podia ter demorado o dia todo, com todos os inconvenientes conhecidos de quem costuma trafegar pelas rodovias, demorou cerca de quarenta e cinco minutos, pouco mais, graças ao celular.

Mercê dessa história, eu, que passava grande parte de meu tempo nas estradas, não tive mais dúvida: comprei meu primeiro tijolão. Pois nem assim consegui quebrar uma roda do carro. Pra falar a verdade, nem um simples furinho num pneu eu consegui nos tempos em que me arriscava pelas estradas todos os dias. Vivi muito tempo frustrado por não ter motivo nenhum para usar o celular numa estrada deserta, recebendo algum tipo de socorro com o auxílio do aparelho. Isso justificaria o investimento.

Hoje ando bem menos, mas o celular tornou-se um hábito, primeiro da cintura, e agora do bolso. Não gosto de me sentir nu.

O indigitado, entretanto, de uns tempos para cá tem sido o agente de minha humilhação. Quando estou no aeroporto, no shopping ou em qualquer outro lugar público, fico observando como as pessoas normais usam sem parar o aparelhinho. Eles sempre têm alguém para quem ligar ou de quem receber ligação. O tempo todo. Os discretos escondem a boca com a mão e falam baixinho, mas não param. Outros, menos discretos, levantam o braço livre, desnudam suas intimidades em público, dão espetáculo. Uns não conseguem parar de andar. Tropeçam nas crianças, pisam nos pés da gente, sem parar de gritar. Vão e voltam o tempo todo, muito agitados. Combinam negócios, ameaçam com o divórcio, marcam encontro com a amante, falam de seus males físicos e espirituais. Tudo isso como se estivessem absolutamente sós no mundo.

E eu, que porto modestamente meu aparelho mudo enfiado no meu bolso, me sinto um pobre diabo. Então fico torcendo para que alguém se lembre de ligar pra mim. Inútil. Só as pessoas importantes são procuradas, as pessoas de quem outras pessoas dependem.

Às vezes faço uma ligação tola e inútil, só para parecer moderno.

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