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Um partido e sua contradição

por Janes Jorge — publicado 03/09/2011 09h18, última modificação 05/09/2011 19h09
Lincoln Secco descreve as forças em confronto no Partido dos Trabalhadores e analisa sua trajetória

Interpretações demasiadamente tranquilizadoras cercam a história do Partido dos Trabalhadores, que nasceu da vontade popular e chegou ao poder ao liderar uma ampla aliança. Sua trajetória, contudo, é complexa. Basta observar que em 2005, durante o chamado mensalão, uma ocorrência frustrou tanto aqueles que detectavam nos êxitos eleitorais uma estratégia política vitoriosa quanto os que viam no partido uma mera máquina eleitoral. A mobilização espontânea das bases do PT, quando essas pareciam ter perdido importância, manteve o apoio do eleitorado no ano seguinte.

Essa complexidade ajuda a explicar as 300 referências bibliográficas sobre o partido entre 1980 e 2002, segundo a Fundação Perseu Abramo. E um dos livros mais importantes a abordá-lo é o recente História do PT, do professor de História da USP Lincoln Secco (Ateliê, 320 págs., R$ 30). Ele divide a história do partido em fases que intitula formação (1978-1983), oposição social (1984-1989), oposição parlamentar (1990-2002) e partido de governo (2003-2010). Apresenta aspectos fundamentais da trajetória da legenda e questiona interpretações recorrentes sobre ela.

O pioneirismo do PT como agremiação de massas é relativizado. Secco retoma o PCB, fundado por trabalhadores longe dos meios políticos tradicionais e que, no curto período de legalidade (1945-1947), foi ou esteve perto de ser um verdadeiro partido de massas. Segundo o autor, em 1978, era mesmo “difícil separar radicalmente sindicalistas do PCB e do futuro PT”. Mas o sindicalismo vinculado ao PT era contra o imposto sindical e combatia o atrelamento ao Estado, o que o distinguia dos comunistas. Havia também a recusa ao modelo político soviético.

O historiador encontrou forte diversidade no partido. Enquanto em alguns locais o operariado dava o tom, em outros a força do PT vinha dos trabalhadores rurais ou de setores médios. Isso leva- à questão de como foi possível convergir forças de contextos tão diversos. Aqui, Lula parece central, ao lado da utopia que saturava o imaginário popular, da qual o PT, mais do que causa, foi consequência. Partido que defendia o socialismo e a democracia participativa, ele impôs dificuldades a Lula, sua grande liderança, demonstrando a validade de sua democracia interna. Em 1993, quando o Brasil fez o plebiscito para escolher presidencialismo ou parlamentarismo, o sindicalista e outros dirigentes defendiam este último, mas os militantes votaram pelo primeiro. Em 2002, Lula enfrentou prévias, pois para muitos sua vitória parecia impossível.

O livro trata da formação e do funcionamento dos núcleos de base do PT, que perderam espaço para lideranças envolvidas em campanhas eleitorais profissionalizadas. Isso colaborou para a retração da militância e da própria cultura política naqueles anos 1990 marcados pelo desemprego, precarização do trabalho e avanço do neoliberalismo. Nesse contexto o autor procura explicar o “mensalão”, cujas causas recuariam para além de 2002. Embora predomine o tom crítico e às vezes pessimista quanto ao presente não só do PT, mas da esquerda brasileira, o livro registra os méritos do partido, bem como a dimensão ao mesmo tempo utópica e concreta da luta dos petistas. Traz o testemunho de quem viu o poder popular no estádio de Vila Euclides, a construção da resistência no campo ou nas periferias do Brasil, os encontros partidários e comícios de massa, o compromisso com as lutas populares. Ao ler a obra, fica nítido que compreender a história do PT é entender melhor a história recente do Brasil.