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Refogado

Um otário em viagem

por Marcio Alemão publicado 09/07/2012 10h31, última modificação 09/07/2012 10h40
Apesar de anos na estrada caí na armadilha e cheguei 
a crer que o restaurante japonês fosse tão bom quanto o que falam dele
japa-power

O tempura de um espetacular king crab foi reduzido a dois tocos de perns encharcados. Ilustração: Ricardo Papp

Estive em um hotel que se chama Atlantis. Fica em Nassau, nas Bahamas. Como sei que jamais conseguirei descrever o local com precisão, digite o nome em seu computador e descubra a respeito do que estou falando.

Sim, sim, trata-se da cidade perdida de Atlântida a partir de um ponto de vista mais comercial, um pouco menos mítico. Pesquisadores, historiadores, decoradores, videntes e seres esquisitos trabalharam em conjunto na criação do local.

Restaurantes são muitos, divididos em casuais ou alta gastronomia. O famoso Nobu, considerado por muitos o melhor restaurante japonês do mundo, lá está. Lá e em muitos outros países. Há pouco, em Los Angeles, a habitante local que nos apoiava disse que, de fato, na opinião dela, o tal era o melhor japa da cidade.

O do Atlantis eu já diria que pode ser considerado um dos piores japas do planeta.

Mas se você quer mesmo saber o que mais me deixou furioso, irritado, transtornado, eu te digo: por que, depois de tantos anos de estrada, de janela, eu fui cair nessa tradicionalíssima armadilha? Por que cheguei a pensar, a cogitar, a crer mesmo, que o “seo Nobu”, sabendo que o famoso Marcio Alemão estaria pela ilha, teria dado um toque na moçada dizendo: “Capricha aí, rapaziada! O Alema tá na área”. Não rolou o toque.

O concièrge do hotel nos confirmou a reserva com um orgulho que poucas vezes vi estampado no rosto de um ser humano. Inveja também, um pouquinho. Mas no fundo ele estava feliz por nós, que iríamos ao Nobu.

Se eu simplesmente disser que foi uma porcaria e que o “seo Nobu” deveria poder ser processado por se valer da fama, talvez merecida em algum momento, para achacar turistas de boa-fé, o que você me diria? Eu sei, eu sei que a culpa foi minha e que 99,9% dos chefs famosos que começam a abrir casas pelo mundo não conseguem oferecer a qualidade de suas primeiras casas. Confesso, porém, que lá no fundo, bem no fundo, cheguei a crer que seria diferente.

Você pode imaginar um tempura de king crab? Eu consegui e aquilo teve uma ressonância maravilhosa no paladar de minha imaginação. E mais: um tempura de king crab com uma emulsão do “seo Nobu”. Agora não precisa imaginar nada, mas apenas se lembrar das muitas vezes que você já pediu tempuras em japoneses de pouca fama e qualidade e eles chegaram frouxos, encharcados. Assim vieram os dois tocos de pernas do espetacular caranguejo das águas geladas.

Lembrei do extraordinário programa Pesca Mortal no qual, segundo o narrador, homens arriscam suas vidas a cada segundo para recolher uma gaiola cheia desses enormes e pré-históricos bichos.  Eu disse “segundo o locutor” porque, na verdade, nunca está acontecendo absolutamente nada nesse programa. O tempo no Mar de Bering é sempre ruim. Eles usam capas e luvas e jogam gaiolas na água e as retiram depois de um tempo. Nada temos além disso e eles já estão, acho, na sétima temporada do programa.

Ainda assim, os rapazes do Nobu não respeitaram o esforço empreendido pelos rapazes de Bering. A tal emulsão tinha algo doce, algo ácido e no todo era uma bobagem dispensável. Alguns enrolados de salmão normais e, me perdoe, um prato qualquer que pedi e que se mostrou tão vagabundo que esqueci.

E será que não dá para processar, mesmo?

Eu me lembrei, claro, do Wolfgang Puck. Esse, um embusteiro já consagrado pela péssima qualidade de tudo que fez, depois de ser eleito várias vezes, no passado, o melhor chef de Los Angeles. Escrevi alguns Refogados sobre esse senhor há muitos anos. E ele está solto, acreditem. E deve estar rico, porque no mundo o que não falta é otário, como eu, que achei que seria diferente no japa com dezenas de filiais around the world. Semana que vem tem mais sobre a gastronomia na cidade perdida.